O cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos parece ter seguido o manual clássico das tréguas modernas: anunciado com pompa diplomática e desfeito com barulho de explosões.

Nesta quarta-feira (8), o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou, com a previsível indignação de quem foi surpreendido pelo óbvio, que o acordo foi rompido após ataques em pleno território nacional — mais precisamente nas ilhas de Lavan e Siri, no Golfo Pérsico.
Enquanto a imprensa estatal relatava as explosões, o cessar-fogo, ao que tudo indica, já havia se tornado apenas mais um desses conceitos abstratos da geopolítica: bonito no discurso, descartável na prática e incapaz de sobreviver ao primeiro míssil mal colocado.
E, para não perder a coerência com o roteiro, a trégua durou menos de 24 horas — tempo suficiente apenas para redigir notas oficiais, ensaiar discursos sobre “estabilidade” e, claro, provar que na diplomacia contemporânea o prazo de validade de um cessar-fogo pode ser mais curto que o de uma notícia de última hora.
Em tempos líquidos, até o cessar-fogo escorre pelas mãos antes que se possa compreendê-lo.
O que outrora simbolizava uma pausa solene — quase sagrada — na barbárie, hoje parece assumir a forma de um intervalo frágil, volátil, dissolvido na mesma instabilidade que rege as relações contemporâneas.
Zygmunt Bauman já advertia que “na modernidade líquida, as relações não são mantidas porque são valiosas, mas porque ainda não foram descartadas”. O cessar-fogo, nesse cenário, não é mais um compromisso: é apenas uma suspensão provisória da violência, sempre à beira do colapso.
A população, espectadora involuntária desse teatro de promessas descartáveis, passa a perceber a paz não como um estado possível, mas como um evento improvável — quase fictício.
Cada anúncio de trégua soa menos como alívio e mais como prelúdio de uma nova ruptura. O indivíduo comum, bombardeado não apenas por mísseis, mas por narrativas contraditórias, aprende a desconfiar até mesmo das pausas, pois elas carregam em si a suspeita do engano.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, alertava para o perigo de uma violência que se normaliza e se torna parte do cotidiano.
Em um mundo onde até o cessar-fogo se liquefaz, a guerra deixa de ser exceção e passa a ser o pano de fundo constante — e o que resta à população é uma espécie de anestesia moral, uma adaptação silenciosa ao absurdo.
Afinal, quando a paz dura menos que um dia, ela já não se apresenta como esperança, mas como ironia.


