
Por Ana Luisa Mendes
“Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável? Lágrimas molha a medalha de um vencedor. Até Jesus chorou.”
Vivemos a era da hiperprodutividade, estar cansado virou sinônimo de fraqueza e pausar parece um crime. Mas até quando a gente aguenta carregar esse peso?
O rap, que muita gente ainda enxerga só como a crônica da dureza das ruas, guarda também reflexões muito profundas sobre a nossa fragilidade. E poucas obras traduzem isso de um jeito tão cru quanto Jesus Chorou, dos Racionais MC’s.
Mano Brown faz algo brilhante nessa faixa, ele quebra a imagem do cara durão e mostra a angústia, a desconfiança e a solidão de quem não tem o direito de fraquejar. O próprio título é um tapa na cara. Afinal, se a figura espiritual mais forte que a gente conhece também desabou e chorou, de onde tiramos a ideia de que precisamos ser uma máquina?
Essa cobrança por invulnerabilidade não está apenas nas ruas, ela invade as nossas casas e telas.
Na nossa rotina diária a sensação é de que não há espaço para a queda. A sociedade nos cobra o tempo todo, entregue o relatório, bata a meta, seja uma mãe ou um pai presente, uma parceira ou um parceiro impecável. Engula o choro e siga.
A letra de Jesus Chorou, é como um espelho que nos permite tirar essa armadura.
É um lembrete de que a saúde mental não é um luxo, mas uma necessidade de sobrevivência. Essa faixa nos diz que o choro não é um atestado de derrota, mas uma válvula de escape da nossa própria humanidade.
No meu texto anterior falei sobre como a neurociência prova que o som altera a nossa química para nos salvar do caos, Racionais nos ensina como a música salva a nossa alma.
Tentar ser de ferro em uma “selva de pedra” é a receita para enferrujar por dentro.
A maior subversão dos nossos dias não é apenas bater metas ou sobreviver ao sistema é ter a coragem de assumir as próprias lágrimas e reconhecer que, debaixo de toda essa cobrança, nós somos humanos.
Sobre a Autora:
Ana Luisa Mendes é estudante de Ciências Contábeis e atua nas áreas de marketing digital e e-commerce, dedicando-se a entender as engrenagens do comportamento e do consumo na era conectada.
Apaixonada por cruzar cultura e análise social, em “O Som das Ideias” ela investiga o impacto da música em nossas vidas, propondo uma escuta crítica e atenta aos movimentos do universo sonoro.
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