Uma declaração do enviado especial para parcerias globais do governo Donald Trump provocou reação e controvérsia internacional.

Em entrevista ao canal italiano RAI, na quinta-feira (23), Paolo Zampolli afirmou que mulheres brasileiras seriam “programadas” para causar problemas, comentário que rapidamente repercutiu nas redes e em círculos diplomáticos.
A fala ocorreu em meio às acusações feitas por Amanda Ungaro, ex-modelo brasileira e ex-companheira de Zampolli por cerca de duas décadas.
Ela relata episódios de agressão física, psicológica e sexual, incluindo violência quando recusava relações íntimas, e apresentou registros fotográficos como evidência.
Zampolli nega as acusações e sustenta que as denúncias têm o objetivo de prejudicá-lo.
O episódio expõe não apenas uma disputa pessoal com desdobramentos judiciais, mas também levanta críticas sobre estereótipos de gênero e o impacto de declarações públicas de autoridades em relações internacionais.
O sexismo não se limita a uma opinião deslocada no tempo; ele se infiltra, silencioso e persistente, na linguagem, nas instituições e nas expectativas que moldam a vida cotidiana.
Ao reduzir o outro a um estereótipo — como se houvesse uma “programação” invisível a reger condutas — o discurso sexista não apenas distorce a realidade, mas autoriza práticas de exclusão e violência. Simone de Beauvoir já advertia, com precisão cirúrgica, que “não se nasce mulher: torna-se”, apontando que aquilo que muitos tratam como natureza é, em verdade, construção social reiterada até parecer destino.
Nesse tecido complexo, o sexismo opera como uma gramática oculta do poder.
Pierre Bourdieu, ao analisar a dominação simbólica, observa que certas hierarquias se perpetuam justamente porque são naturalizadas, aceitas sem contestação consciente.
Assim, o preconceito deixa de ser percebido como escolha e passa a ser vivido como evidência — um erro que se mascara de obviedade.
Judith Butler, por sua vez, argumenta que os papéis de gênero são performativos: repetidos ao ponto de parecerem essência.
Quando tais performances são policiadas por discursos discriminatórios, a liberdade individual é comprimida em moldes estreitos e, muitas vezes, violentos.
Os impactos dessa lógica reverberam na teia social de forma ampla e, por vezes, devastadora.
Não se trata apenas de ofensa simbólica, mas de consequências concretas: desigualdade salarial, invisibilidade política, tolerância tácita à violência. bell hooks, ao refletir sobre interseccionalidade, lembra que o sexismo não atua isoladamente, mas entrelaçado a outras formas de opressão, aprofundando fissuras sociais.
O resultado é uma sociedade que, ao insistir em hierarquizar seus próprios membros, fragiliza a si mesma.
Combater o sexismo, portanto, não é um gesto de correção superficial, mas um exercício ético de reconstrução do olhar. Exige reconhecer — e, sobretudo, questionar — as narrativas que herdamos e reproduzimos.
Como advertia Hannah Arendt, o perigo maior reside na banalidade do mal: na repetição acrítica de ideias que, embora pareçam triviais, sustentam estruturas de injustiça.
E é precisamente nesse ponto que o pensamento se torna ato — quando deixa de aceitar o mundo como dado e passa a interrogá-lo como possibilidade.


