Em meio à crescente disputa pela liderança global, Rússia e China avançam na construção de uma parceria estratégica cada vez mais robusta.

Durante visita oficial de Vladimir Putin a Pequim, Moscou e Pequim anunciaram uma ampla declaração conjunta em defesa de um “mundo multipolar” e de um novo modelo de relações internacionais.
O movimento ocorre em um momento de intensificação das tensões geopolíticas com os Estados Unidos e sinaliza a tentativa das duas potências de ampliar sua influência política, econômica e energética no cenário global.
Entre acordos bilionários, projetos energéticos e alinhamento diplomático, a aproximação sino-russa reforça que o tabuleiro internacional vive uma acelerada transição de poder — marcada por alianças estratégicas, disputas de influência e redesenho da ordem mundial construída após a Guerra Fria.
Durante décadas, o mundo acostumou-se à ideia de uma única grande bússola geopolítica.
Após o colapso da União Soviética, os Estados Unidos emergiram como potência dominante de uma ordem internacional baseada em influência militar, financeira, tecnológica e cultural sem precedentes históricos. Parecia o “fim da História”, como sugeriu Francis Fukuyama nos anos 1990. Mas a História, como sempre, recusou-se a terminar.
Hoje, a palavra “multipolaridade” voltou ao centro do vocabulário diplomático mundial.
Rússia e China passaram a defender abertamente a construção de uma ordem internacional menos dependente da influência americana, enquanto potências emergentes tentam ampliar seu espaço num planeta cada vez mais fragmentado, competitivo e estrategicamente instável.
O cientista político Samuel Huntington advertia que o século XXI tenderia a ser marcado menos por consenso global e mais pela disputa entre civilizações, interesses estratégicos e blocos culturais distintos. Em muitos aspectos, o cenário contemporâneo parece confirmar sua previsão.
A ascensão econômica chinesa talvez seja o fenômeno geopolítico mais relevante desde a Segunda Guerra Mundial. Em poucas décadas, Pequim deixou de ser economia periférica para tornar-se potência tecnológica, industrial e financeira capaz de rivalizar diretamente com Washington em diversas áreas estratégicas.
O diplomata Henry Kissinger observava que a China pensa geopoliticamente em horizontes longos, milenares, enquanto o Ocidente frequentemente opera sob lógica imediatista eleitoral e econômica. Talvez por isso Pequim avance silenciosamente em infraestrutura, comércio, inteligência artificial e influência internacional, evitando confrontos diretos sempre que possível.
Já a Rússia, embora economicamente menor que China e EUA, mantém enorme capacidade militar, energética e nuclear. Vladimir Putin aposta justamente na reconstrução da influência russa através da força geopolítica, do nacionalismo estratégico e da contestação aberta da hegemonia ocidental.
Entretanto, a multipolaridade carrega fascínio teórico e perigos concretos.
O diplomata norte-americano George Kennan advertia que sistemas internacionais multipolares tendem a produzir maior instabilidade estratégica, porque ampliam disputas simultâneas de influência e dificultam equilíbrio previsível entre potências.
Durante a Guerra Fria, o planeta viveu sob ordem bipolar relativamente clara: EUA versus União Soviética. Hoje, o cenário tornou-se muito mais complexo. China, Rússia, Estados Unidos, União Europeia, Índia e potências regionais disputam simultaneamente influência econômica, tecnológica, militar e cultural.
O cientista político John Mearsheimer, representante do realismo ofensivo, argumenta que grandes potências inevitavelmente buscarão expandir influência para garantir sobrevivência estratégica. Nesse modelo, conflitos geopolíticos não seriam acidentes históricos, mas consequências naturais da própria dinâmica do poder internacional.
A guerra na Ucrânia, as tensões em Taiwan, os conflitos energéticos, as sanções econômicas e a disputa tecnológica global revelam justamente esse novo ambiente multipolar em formação.
Existe ainda um paradoxo curioso: embora o discurso multipolar defenda equilíbrio internacional, nenhuma grande potência parece verdadeiramente interessada em dividir influência de maneira equilibrada. Todas desejam multipolaridade — desde que ocupem posição privilegiada dentro dela.
O sociólogo Zygmunt Bauman observava que o mundo contemporâneo tornou-se simultaneamente integrado e fragmentado. Economias dependem umas das outras, mas rivalidades políticas crescem no mesmo ritmo da interdependência global.
China e EUA, por exemplo, são adversários estratégicos crescentes, mas mantêm profunda dependência econômica recíproca. A Rússia desafia o Ocidente militarmente, mas continua vinculada aos mercados globais de energia. A multipolaridade contemporânea nasce justamente dessa contradição: competição intensa dentro de uma economia mundial profundamente conectada.
O diplomata brasileiro Celso Amorim costuma defender que um mundo multipolar pode reduzir unilateralismos e ampliar espaço diplomático para países emergentes. Em tese, a existência de múltiplos polos impediria concentração excessiva de poder global.
Mas a História também ensina cautela. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial era multipolar. O resultado foi uma escalada de alianças, rivalidades e crises que mergulhou o planeta numa tragédia sem precedentes.
No fundo, a viabilidade da multipolaridade dependerá menos da existência de várias potências e mais da capacidade dessas potências conviverem com limites, negociação e equilíbrio institucional. Porque toda ordem internacional, seja unipolar, bipolar ou multipolar, enfrenta o mesmo dilema humano fundamental: o poder raramente aceita dividir espaço espontaneamente.
E talvez o maior desafio do século XXI não seja apenas descobrir quem comandará o mundo — mas impedir que a disputa por esse comando destrua o próprio equilíbrio da civilização global.


