Copacabana voltou a se transformar em um espetáculo à parte — não apenas pelo palco, mas pelo mar humano que se estendeu pela orla.

Na noite deste sábado (2), a cantora colombiana Shakira reuniu cerca de 2 milhões de pessoas durante o evento “Todo Mundo no Rio”, segundo dados da Riotur divulgados pelo prefeito Eduardo Cavaliere.
O número a coloca entre os maiores públicos da história da praia, superando Madonna, que atraiu 1,6 milhão em 2024, mas ainda atrás de Lady Gaga, que lidera o ranking com 2,1 milhões em 2025.
Confira os 10 maiores públicos – até o momento – de shows ao ar livre e com entrada gratuita:
- Rod Stewart (3,5 milhões em 1994)
- Jean-Michel Jarre (3,5 milhões em 1997)
- Jorge Ben Jor (3 milhões em 1993)
- Jean-Michel Jarre (2,5 milhões em 1990)
- Lady Gaga (2,5 milhões em 2025)
- Shakira (2 milhões em 2026)
- Madonna (1,6 milhão em 2024)
- Monsters of Rock (1,6 milhão em 1991)
- The Rolling Stones (1,5 milhão em 2006)
- Live 8 (1,5 milhão em 2005)
Embora a metodologia dos cálculos não tenha sido detalhada, o feito reafirma Copacabana como um dos maiores palcos a céu aberto do mundo — onde a música se mede, também, pela multidão que consegue reunir.
“Panem et circenses”, advertia o poeta romano Juvenal, ao descrever a estratégia de poder que oferecia alimento e espetáculo para conter o ímpeto crítico da população.
A máxima atravessa séculos não como relíquia, mas como espelho. Hoje, o pão se sofisticou em consumo e crédito; o circo ganhou luzes, palcos monumentais e transmissões globais. O que persiste é a engrenagem: a gestão das atenções.
O sociólogo Guy Debord afirmou que “tudo o que era diretamente vivido se esvai na representação”, apontando para uma sociedade em que o espetáculo não é apenas entretenimento, mas mediação dominante da realidade.
Nessa lógica, grandes eventos artísticos — grandiosos, legítimos em sua potência estética — também podem ser instrumentalizados como dispositivos de dispersão político-intelectual.
Não por uma conspiração simplista, mas por uma convergência de interesses: economia, poder e narrativa. Enquanto multidões se reúnem em comunhão emocional, o debate público, por vezes, se dilui em ruído, e a crítica cede lugar ao encantamento.
O historiador Eric Hobsbawm lembrava que tradições e rituais podem ser “inventados” para consolidar identidades e legitimar estruturas.
Adaptando a reflexão, os megaeventos contemporâneos funcionam como rituais de pertencimento e catarse coletiva, nos quais a experiência estética se mistura à fabricação de consenso.
Já Noam Chomsky, ao analisar os mecanismos de mídia, argumenta que a distração sistemática é uma das estratégias centrais para manter o foco longe de questões estruturais — uma forma de “desviar a atenção do público dos problemas importantes”.
Não se trata de condenar a arte, que é, em si, possibilidade de transcendência e crítica.
Trata-se de reconhecer sua ambivalência quando capturada por lógicas de poder. Entre luzes e aplausos, há uma pergunta incômoda: o espetáculo ilumina ou ofusca?
A resposta talvez resida na consciência do espectador — se ele permanece sujeito, capaz de fruir e refletir, ou se se torna apenas parte da paisagem, absorvido por um brilho que, enquanto encanta, também silencia.


