Entre brindes de whisky raríssimo, cifras nababescas e a liturgia discreta do poder em trajes de gala, Londres serviu de palco para mais um capítulo do curioso encontro entre República e ostentação. No cardápio, suicinhas.

O banqueiro Daniel Vorcaro, em gesto que mistura generosidade e exibicionismo, ofereceu não apenas uma homenagem ao ministro Alexandre de Moraes, mas um verdadeiro festival de excessos — daqueles que fariam corar até monarquias absolutistas.
No roteiro, jatinhos, hotel de luxo, jantar de milhões e um after party com “credenciais” um tanto… peculiares. Broches que abriam portas para ambientes menos institucionais circularam entre os convidados, embora — registre-se — as autoridades tenham preferido manter a compostura, ao menos oficialmente.
“O encontro teve uma peculiaridade: após um nababesco jantar no Annabel’s, um clube exclusivo para super-ricos, Vorcaro distribuiu a um seleto grupo broches que davam passe livre para um espaço com a presença de moças apelidadas de “suicinhas”.
Entre o DJ internacional e o eco de decisões que moldam a vida de milhões de brasileiros, a cena sugere uma pergunta incômoda: onde termina a homenagem e começa o teatro de privilégios?
Afinal, quando o poder brinda em taças de cristal ao som de Seal, a sobriedade republicana parece, no mínimo, ter pedido licença para se retirar discretamente pela porta dos fundos.
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Nos salões onde o poder se encena com elegância estudada e silêncios cúmplices, o corpo feminino frequentemente deixa de ser sujeito para tornar-se moeda — sutil, disfarçada, socialmente higienizada.
Não se trata de um escândalo isolado, mas de um padrão antigo, que atravessa séculos com a mesma habilidade com que se adapta aos códigos de cada época: ontem nos bastidores das cortes, hoje nos lounges exclusivos onde decisões e desejos se confundem.
Simone de Beauvoir já advertia, com precisão desconcertante, que “não se nasce mulher: torna-se”.
E nesse tornar-se, muitas vezes, o feminino é moldado não por sua própria liberdade, mas pelas expectativas e conveniências de estruturas de poder que o capturam.
A instrumentalização sexual, nesse contexto, não é mero excesso ou desvio moral; é mecanismo — uma engrenagem que opera silenciosa, transformando presença em serviço, desejo em performance, autonomia em ilusão negociada.
Judith Butler, ao analisar a performatividade de gênero, sugere que os papéis sociais são reiterados por atos repetidos. Nos bastidores do poder, esses atos ganham contornos mais crús: a mulher convocada a ocupar determinados espaços não como agente, mas como cenário.
Não como voz, mas como atmosfera. E assim, o que se vende como glamour revela-se, sob análise mais rigorosa, uma coreografia antiga, onde a liberdade é encenada, mas raramente exercida em sua plenitude.
Há, evidentemente, quem argumente — ou prefira acreditar — que tudo se resume à escolha individual, ao consentimento, ao livre arbítrio.
Mas essa leitura, embora confortável, ignora as assimetrias profundas que estruturam tais “escolhas”. Como bem aponta bell hooks, “o patriarcado não tem gênero”: ele se infiltra em práticas, instituições e até nos desejos, naturalizando relações de dominação sob a aparência de normalidade.
O mais inquietante, talvez, não seja a existência desse tipo de dinâmica, mas sua banalização. Quando a instrumentalização do corpo feminino se torna detalhe de bastidor — quase uma nota de rodapé em meio ao luxo e à influência —, o que está em jogo não é apenas a dignidade de algumas mulheres, mas o próprio significado de civilização que se pretende sustentar.
No fim, resta uma constatação incômoda: o poder, quando não confrontado, tende a erotizar suas próprias hierarquias.
E, nesse jogo, o feminino, tantas vezes, é reduzido a ornamento de um banquete que jamais ajudou a escolher — mas do qual é constantemente convocado a participar.


