Entre disputas eleitorais, crises institucionais e o avanço da polarização, o Peru revela como a instabilidade política ultrapassa os limites do poder e atinge diretamente a vida cotidiana da população.
Na coluna Olhar no Mundo desta semana, uma reflexão filosófica e existencial sobre os impactos silenciosos das crises democráticas na esperança, na confiança social e no futuro das nações.

O Peru segue mergulhado em incertezas políticas após as eleições presidenciais realizadas em abril.
Quase um mês depois da votação, o resultado ainda não foi oficialmente definido, levando as autoridades eleitorais a anunciarem uma recontagem total dos votos sob o argumento de garantir transparência e credibilidade em uma disputa marcada pelo equilíbrio extremo.
A candidata Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, aparece na liderança com 17,12% dos votos, enquanto o esquerdista Roberto Sánchez e o ultraconservador Rafael López Aliaga travam uma disputa apertada pela segunda vaga no turno decisivo, separados por apenas 27,5 mil votos.
Em meio a atas contestadas, denúncias de inconsistências e um cenário de forte polarização, o país volta a expor a fragilidade institucional que o acompanha há mais de uma década — período em que nove presidentes passaram pelo poder.
O pleito deste ano, no entanto, não deve resolver a profunda crise política na qual o Peru está mergulhado há uma década, na opinião de Veronika Mendoza, ex-deputada e ex-candidata à Presidência da República, atualmente integrante do partido Nuevo Perú.
Mondonza falou ao Brasil de Fato (link abaixo) sobre o caos político no país que teve nove presidentes nos últimos dez anos e que, no pleito atual, bateu o recorde de candidatos; 35 aspirantes ao cargo.
A instabilidade política raramente permanece confinada aos palácios presidenciais, parlamentos ou tribunais eleitorais.
Ela escorre silenciosamente para o cotidiano das pessoas comuns, alterando expectativas, corroendo a confiança social e instaurando uma sensação permanente de insegurança coletiva.
Quando governos caem sucessivamente, instituições entram em conflito e eleições se tornam disputas intermináveis, a vida cotidiana passa a ser vivida sob a lógica da incerteza.
A cientista política Hannah Arendt advertia que “o poder se sustenta na legitimidade, não na violência”.
Quando a legitimidade institucional se fragiliza, cresce o sentimento de desamparo social: investimentos são adiados, empregos desaparecem, serviços públicos se deterioram e a população passa a desconfiar não apenas dos governantes, mas da própria ideia de representação democrática.
A política deixa de ser percebida como instrumento de organização da vida comum e passa a ser vista como um território de crise contínua.
O sociólogo e cientista político Norberto Bobbio observava que a democracia depende da “confiança nas regras do jogo”.
Sem essa confiança, instala-se uma fadiga cívica perigosa: cidadãos deixam de acreditar no voto, no diálogo e na capacidade das instituições resolverem conflitos. Surge então o terreno fértil para radicalismos, messianismos e discursos autoritários que prometem ordem imediata em troca de liberdades graduais.
Na dimensão existencial, a instabilidade política produz algo ainda mais profundo: a erosão do horizonte. Famílias deixam de planejar o futuro, jovens desacreditam da mobilidade social e o medo passa a orientar decisões econômicas, afetivas e profissionais.
Como advertia o cientista político Guillermo O’Donnell, democracias frágeis frequentemente geram “cidadanias incompletas”, nas quais direitos existem formalmente, mas não se materializam plenamente na vida real.
Ainda assim, a história demonstra que sociedades não se sustentam indefinidamente sobre o caos.
Crises também revelam a necessidade de maturidade institucional, participação cidadã e responsabilidade coletiva.
Em tempos de turbulência, preservar a confiança na democracia talvez seja menos um gesto de ingenuidade e mais um ato consciente de resistência civilizatória.


