Entre comprimidos e decisões apressadas, o brasileiro parece ter transformado a própria casa em uma espécie de “consultório improvisado”.

Uma pesquisa do ICTQ revela que 9 em cada 10 pessoas recorrem à automedicação, especialmente diante de gripes, dores e febres — um hábito aparentemente inofensivo, mas que, silenciosamente, pode cobrar seu preço, atingindo órgãos vitais como o fígado.
Ao tomar conhecimento do dado alarmante com relação à automedicação, a coluna Claudia Meireles conversou com a hepatologista Liz Marjorie, de Juazeiro do Norte (CE).
Em um mundo marcado pela pressa e pela ilusão de controle, a automedicação surge como um gesto aparentemente simples, quase banal, mas profundamente revelador da relação do ser humano com o próprio corpo.
Ao silenciar sintomas com comprimidos escolhidos ao acaso, muitas vezes não se trata apenas de aliviar a dor, mas de evitar o encontro com a própria vulnerabilidade.
A saúde, porém, não é a ausência imediata do desconforto, mas um equilíbrio dinâmico que exige escuta, responsabilidade e consciência.
Quando o indivíduo se automedica de forma recorrente, ele interrompe o diálogo natural do organismo consigo mesmo, mascarando sinais que poderiam orientar a prevenção e o cuidado adequado.
Nesse sentido, o alívio rápido pode custar caro: diagnósticos tardios, agravamento de doenças e danos silenciosos, como os causados ao fígado, tornam-se parte de uma conta invisível.
Os riscos, muitas vezes negligenciados, são amplos e concretos: o uso indiscriminado de analgésicos e antitérmicos pode provocar hepatotoxicidade; anti-inflamatórios podem causar lesões gástricas, sangramentos e sobrecarga renal; antibióticos utilizados sem critério contribuem para a resistência bacteriana, um dos maiores desafios da saúde global. Soma-se a isso o perigo das interações medicamentosas, das doses inadequadas e da falsa sensação de segurança que adia a busca por diagnóstico preciso.
Como advertia Hipócrates, “antes de curar alguém, pergunte-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer”.
A automedicação, muitas vezes, é a recusa dessa pergunta essencial.
Ela substitui o autoconhecimento pelo improviso, e a promoção da saúde — que deveria ser um caminho de educação, prevenção e acompanhamento — por soluções imediatistas.
Promover a saúde é, antes de tudo, um exercício de consciência: reconhecer limites, buscar orientação qualificada e compreender que o corpo não é um inimigo a ser silenciado, mas um aliado que constantemente comunica suas necessidades.
Entre o remédio e a responsabilidade, reside a escolha que define não apenas a cura, mas a forma como se vive — e os riscos que se está disposto a correr.


