A brasileira Enter entrou para o seleto grupo dos unicórnios latino-americanos ao atingir valuation de US$ 1,2 bilhão após uma nova rodada de investimentos liderada pelo fundo americano Founders Fund, de Peter Thiel.

Especializada em inteligência artificial aplicada ao setor jurídico, a startup consolida o avanço das legaltechs brasileiras no cenário global e amplia sua influência com a chegada do presidente do STF, Luís Roberto Barroso, do advogado Roberto Quiroga e do apresentador Luciano Huck ao Conselho Institucional da empresa.
Com soluções voltadas ao contencioso cível e trabalhista, a Enter automatiza etapas estratégicas dos processos judiciais por meio de agentes de IA, sob supervisão de escritórios e departamentos jurídicos. Segundo o cofundador Mateus Costa-Ribeiro, a IA atua dando sugestões para cada processo do início ao fim.
“Ela oferece uma primeira sugestão para cada ato de um processo judicial, como a redação de uma contestação, a análise de provas e a preparação de briefings para audiências”, diz ele, que ficou conhecido em 2018 por se tornar o advogado mais novo do país ao obter a carteirinha da OAB. “A decisão final, no entanto, é sempre resguardada ao advogado habilitado, que é o único responsável por protocolar as ações no Judiciário”, afirma Costa-Ribeiro.
Em apenas um ano, a receita da empresa cresceu mais de dez vezes, enquanto sua base de clientes triplicou. Gigantes como Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb, LATAM e Azul já utilizam o sistema operacional jurídico da startup, que processa mais de 300 mil ações judiciais por ano e promete reduzir custos, ampliar eficiência e redefinir a relação entre tecnologia e Justiça no Brasil.
Durante séculos, o Direito foi construído sobre a crença de que a interpretação humana era insubstituível — quase sagrada. A figura do advogado, cercada de retórica, memória e persuasão, ocupava um espaço profundamente humano: o de traduzir conflitos em linguagem jurídica e transformar dores privadas em argumentos públicos.
Agora, diante do avanço vertiginoso da inteligência artificial, a advocacia começa a atravessar uma das maiores metamorfoses de sua história.
Softwares já redigem petições, analisam contratos, preveem tendências processuais e calculam probabilidades de êxito com velocidade impossível para qualquer mente humana.
O que antes exigia semanas de trabalho pode ser realizado em minutos. Para o cientista da computação Andrew Ng, um dos principais especialistas em IA do mundo, “a inteligência artificial é a nova eletricidade”: uma tecnologia transversal destinada a remodelar praticamente todas as profissões.
No Direito, essa eletricidade silenciosa começa a iluminar — e também a expor — as limitações do modelo tradicional da advocacia.
O sociólogo Manuel Castells observou que “a tecnologia não determina a sociedade: ela incorpora a sociedade”.
A expansão da IA jurídica, portanto, não revela apenas inovação técnica; ela reflete uma cultura contemporânea obcecada por eficiência, previsibilidade e redução de custos.
Em um mundo acelerado, empresas não desejam apenas bons advogados; desejam respostas instantâneas, análises preditivas e decisões estratégicas baseadas em dados. O escritório clássico, sustentado em pilhas de processos e jornadas exaustivas, começa a parecer uma instituição de outro século.
Mas talvez a grande questão não seja se a IA substituirá advogados.
A pergunta mais profunda é: o que permanecerá essencialmente humano dentro do Direito?
O sociólogo Zygmunt Bauman advertia que a modernidade líquida dissolve estruturas sólidas e transforma relações em fluxos rápidos e instáveis. Nesse cenário, o profissional do futuro talvez precise oferecer justamente aquilo que as máquinas não conseguem reproduzir integralmente: sensibilidade moral, percepção ética, escuta genuína e compreensão das ambiguidades humanas.
A inteligência artificial poderá dominar a técnica, mas ainda não experimenta angústia, injustiça, medo ou compaixão — elementos invisíveis que frequentemente definem o destino de um processo muito além dos códigos e jurisprudências.
O advogado que sobreviverá à nova era talvez não seja o que memoriza mais leis, mas o que melhor compreende pessoas.
O futuro da advocacia não parece apontar para a extinção da profissão, mas para sua reinvenção radical. Menos burocracia mecânica; mais estratégia, criatividade e inteligência emocional.
Menos operadores repetitivos do sistema; mais intérpretes da complexidade humana em uma sociedade cada vez mais automatizada.
No fim, a ascensão da IA no Direito carrega uma ironia silenciosa: quanto mais as máquinas assumem tarefas técnicas, mais valioso se torna aquilo que ainda nos faz humanos.


