Segundo levantamento do O Estado de S. Paulo, o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, teriam triplicado o patrimônio imobiliário em cinco anos — um feito que, para o cidadão comum, soa menos como planejamento financeiro e mais como ficção de alto padrão.

Entre togas e escrituras, o noticiário revela um enredo que, no mínimo, convida à arqueologia da confiança pública.
Os números impressionam: 17 imóveis, avaliados em R$ 31,5 milhões, com aquisições de R$ 23,4 milhões realizadas à vista entre 2021 e 2025. Tudo devidamente registrado em cartórios, como convém à liturgia da legalidade.
Ainda assim, a matemática patrimonial, quando acelerada dessa forma, deixa no ar aquela pergunta incômoda que o protocolo institucional costuma evitar, mas a opinião pública insiste em formular: trata-se apenas de sucesso financeiro legítimo ou de mais um capítulo da já banalizada distância entre o Brasil oficial e o Brasil real?
Em um país onde a transparência é frequentemente evocada como princípio — e convenientemente esquecida como prática —, o caso reacende o debate sobre accountability, conflito de interesses e a necessidade de luz constante sobre os que ocupam os mais altos degraus do poder.
Afinal, quando o patrimônio cresce em ritmo de exceção, a desconfiança deixa de ser cinismo e passa a ser método de sobrevivência cívica.
Há algo de quase metafísico — ou tragicômico — na comparação entre a evolução patrimonial de certas elites e a lenta aritmética das famílias assalariadas brasileiras.
De um lado, o patrimônio que se multiplica em progressão quase geométrica, adquirindo forma concreta em metros quadrados, escrituras e cifras à vista; de outro, o trabalhador que, fiel à sua planilha doméstica, celebra como conquista a amortização de mais algumas parcelas de um financiamento que, não raro, atravessa décadas como um rito de passagem.
O contraste não é apenas econômico — é existencial.
Enquanto alguns parecem habitar um tempo acelerado, onde cinco anos bastam para triplicar ativos, a maioria vive sob a tirania de um relógio mais denso, onde o futuro é sempre uma promessa condicionada ao próximo salário.
Como ironizaria Thorstein Veblen, ao analisar as elites, “a riqueza serve menos para satisfazer necessidades do que para exibir distinções”; no Brasil contemporâneo, poderíamos acrescentar, ela também parece servir para desafiar a própria noção de plausibilidade.
A família assalariada, por sua vez, pratica uma espécie de estoicismo involuntário: poupa quando pode, endivida-se quando precisa e espera — sempre espera — que o tempo, esse velho aliado dos juros compostos, jogue a seu favor.
Mas o tempo, como se suspeita, não é um recurso distribuído com a mesma generosidade entre as classes. Para uns, ele capitaliza; para outros, cobra.
E há, por fim, um elemento que escapa às planilhas e invade o campo da ética: a completa ausência de pudor. Não o pudor moralista, mas aquele mínimo senso de medida que, em sociedades minimamente conscientes de suas desigualdades, recomenda alguma discrição.
Aqui, não.
A exuberância patrimonial desfila sem constrangimento, como se a assimetria fosse não apenas inevitável, mas também digna de ostentação pública.
Guy Debord talvez sorrisse com amargura ao notar que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” — e, no espetáculo brasileiro, a desigualdade já não precisa ser escondida: ela é encenada.
Nesse teatro de assimetrias, a ironia se impõe quase como mecanismo de defesa.
Afinal, como não sorrir — ainda que com certo amargor — diante de um país onde o extraordinário se apresenta como rotina para poucos, enquanto o ordinário exige heroísmo da maioria?
Talvez Nietzsche, com sua habitual acidez, tivesse um comentário apropriado: “quem possui o porquê de viver pode suportar quase qualquer como”.
O problema, no Brasil, é que muitos já entenderam o “como” — trabalhar, pagar, resistir —, mas seguem à procura de um “porquê” que não soe como piada.


