Durante sessão plenária do STF nesta quinta-feira, 7, a ministra Cármen Lúcia arrancou risos ao comentar os bastidores da organização eleitoral brasileira.

Ao destacar a complexidade logística das eleições no país, a presidente do TSE afirmou que “Deus ajuda os loucos, os bêbados e também o povo da Justiça Eleitoral”, sugerindo que apenas uma intervenção divina explicaria como “tudo dá certo” ao fim de cada pleito.
A declaração ocorreu após a magistrada esclarecer que não antecipou o encerramento de seu mandato à frente da Corte Eleitoral.
Entre urnas eletrônicas, estatísticas, resoluções, prazos impossíveis e disputas cada vez mais passionais, a Justiça Eleitoral brasileira parece caminhar por um território que Machado de Assis já havia visitado em O Alienista.
Na obra, o médico Simão Bacamarte inaugura a Casa Verde com a pretensão de identificar a loucura na sociedade. Aos poucos, porém, a fronteira entre sanidade e insanidade dissolve-se diante do excesso de controle, da obsessão classificatória e da crença absoluta na própria racionalidade. O que era ciência transforma-se em poder. O que era ordem converte-se em paranoia institucional.
A analogia com a contemporaneidade eleitoral brasileira surge quase inevitavelmente.
Em um país onde a democracia depende de decisões técnicas tomadas sob pressão emocional permanente, a Justiça Eleitoral tornou-se, simultaneamente, árbitra, guardiã e alvo da própria disputa política.
O jurista Lenio Streck costuma advertir que “o direito não pode ser capturado por voluntarismos morais ou políticos”, lembrando que instituições criadas para proteger a democracia podem, paradoxalmente, sufocá-la quando passam a agir sob uma lógica messiânica de salvação nacional.
Machado parecia antecipar esse risco.
Simão Bacamarte não era um vilão vulgar; era um homem convencido de sua missão civilizatória.
O problema nasce justamente quando a convicção técnica deixa de admitir limites.
O cientista político Norberto Bobbio observava que as democracias modernas sobrevivem menos pela perfeição de seus agentes e mais pela contenção recíproca dos poderes.
Quando uma instituição passa a acreditar que apenas ela compreende plenamente o caos social, aproxima-se perigosamente da Casa Verde machadiana.
O antropólogo Roberto DaMatta analisou repetidamente a tendência brasileira de transformar autoridades em figuras sacerdotais, capazes de arbitrar moralmente a vida pública.
Nesse contexto, a Justiça Eleitoral deixa de ser apenas um órgão técnico e passa a ocupar um espaço simbólico quase metafísico: o de guardiã da verdade política nacional.
A própria fala da ministra Cármen Lúcia — ao dizer que “Deus ajuda os loucos, os bêbados e também o povo da Justiça Eleitoral” — revela, com humor involuntariamente filosófico, a dimensão quase sobrenatural atribuída ao funcionamento eleitoral brasileiro.
Há uma consciência tácita do absurdo logístico, emocional e institucional que sustenta o sistema.
Sob a ótica sociológica, Max Weber alertava para o fenômeno da burocracia racional que, ao buscar eficiência absoluta, acaba produzindo estruturas frias, autônomas e autorreferentes.
Em O Alienista, a Casa Verde torna-se precisamente isso: uma máquina legitimada pela técnica, mas progressivamente distante da realidade humana que pretendia compreender.
Algo semelhante ocorre quando o debate democrático é reduzido exclusivamente à linguagem procedimental, estatística ou regulatória, enquanto emoções coletivas — medo, ressentimento, pertencimento — continuam fervendo sob a superfície institucional.
A psicologia social ajuda a explicar esse fenômeno. Gustave Le Bon observava que multidões politizadas tendem a agir menos pela razão e mais pelo contágio emocional.
Já Carl Gustav Jung advertia que sociedades em crise frequentemente projetam suas sombras em figuras ou instituições específicas, transformando-as em salvadoras ou inimigas absolutas.
A Justiça Eleitoral brasileira vive exatamente essa tensão: para uns, é a última muralha da democracia; para outros, um centro excessivo de poder.
Em ambos os casos, a instituição deixa de ser percebida apenas juridicamente e passa a ocupar um papel psicológico coletivo.
O psiquiatra Viktor Frankl sustentava que sociedades incapazes de produzir sentido tendem a buscar segurança obsessiva em sistemas rígidos de controle.
Talvez por isso o ambiente eleitoral contemporâneo oscile entre a hiper-regulamentação e o medo permanente da desinformação, da fraude e do colapso democrático.
A ansiedade institucional torna-se estrutural. Como em Machado, ninguém sabe exatamente onde termina a prudência e começa a obsessão.
No fim de O Alienista, Simão Bacamarte conclui que o único verdadeiramente desequilibrado talvez seja ele próprio. Trata-se de uma das ironias mais devastadoras da literatura brasileira: a razão absoluta, ao tentar diagnosticar toda a sociedade, acaba aprisionando a si mesma.
A democracia contemporânea parece viver dilema semelhante.
Quanto mais as instituições tentam controlar integralmente o caos político, mais revelam que o conflito, a imperfeição e a instabilidade talvez sejam elementos inevitáveis — e até constitutivos — da própria experiência democrática.
Machado de Assis compreendeu cedo aquilo que o século XXI redescobre com desconforto: toda instituição criada para organizar a sociedade corre o risco de enlouquecer quando passa a acreditar que pode corrigir integralmente a natureza humana.


