
Por Simone Pontes
Outro dia vi um vídeo do padre Fábio de Melo falando sobre a relação entre o amor e a “inutilidade” que muitas pessoas passam a sentir ao envelhecer.
Logo no início, algo me entristeceu.
Fiquei imaginando quantas pessoas são, de certa forma, descartadas quando a idade chega — como se deixassem de ter valor.
Porque, com o tempo, vêm também as limitações: a dificuldade de locomoção, a saúde fragilizada, o raciocínio mais lento, as lembranças cada vez mais raras. Passamos a viver entre momentos de lucidez e de esquecimento.
Na verdade, é como se voltássemos a ser crianças novamente — dependentes de tudo e de todos.
E é justamente nesse momento que muitos são abandonados.
Pela família, pelos filhos, pelo companheiro. São deixados em abrigos ou, às vezes, dentro da própria casa, com cuidadores, isolados em um quarto… como se a vida ali já tivesse terminado.
As visitas vão ficando raras. Os passeios se resumem a um pouco de sol no jardim. O carinho diminui. E resta apenas a sensação de estar esperando a hora de partir.
Essa é, infelizmente, a realidade de muitos idosos: o esquecimento.
Por isso, enquanto ainda não chegamos lá, precisamos fazer boas escolhas — inclusive sobre quem queremos ao nosso lado ao longo da vida. Porque o verdadeiro amor não abandona. Ele permanece.
E, em meio a esses pensamentos, me veio à memória uma história: um idoso visitava todos os dias sua esposa com Alzheimer. Perguntaram a ele:
“Por que o senhor continua indo visitar sua esposa, já que ela não o reconhece mais?”
E ele respondeu:
“Ela pode não me reconhecer… mas eu reconheço quem ela é. Ela é a mulher que me deu meu maior tesouro, nosso filho. Que compartilhou comigo os melhores momentos da vida. Que dividiu comigo as minhas dores e multiplicou as minhas alegrias.”
E é exatamente assim: quando se ama de verdade, o tempo não apaga — ele transforma.
O tempo que ele viveu com ela não foi gasto. Foi vivido — e da forma mais bonita possível.
Porque, quando o amor é verdadeiro, ele não se mede pela utilidade.
Ele reconhece valor mesmo na fragilidade, mesmo na dependência, mesmo no silêncio.
Amar também é permanecer quando já não há mais nada a oferecer — a não ser a própria existência.
E é justamente aí que existe algo maior: um amor que não precisa de troca, apenas de presença.
Ame além da utilidade — e viva com sentido.
Sobre a Autora:
Simone Pontes é formada em Direito, Advogada, Administradora de Empresas e Mãe.
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