Em meio a mais um capítulo da já extensa novela institucional brasileira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu, com cautela quase pedagógica, advertir o Supremo Tribunal Federal sobre os danos colaterais de suas próprias companhias.

O alvo da vez é o escândalo envolvendo o Banco Master, que, segundo Lula, vem arranhando a biografia cuidadosamente construída de ministros como Alexandre de Moraes.
Em tom de conselho entre “companheiros”, o presidente relatou ter sugerido ao magistrado que não deixe um episódio financeiro — ainda que formalmente legal — reescrever sua trajetória.
Afinal, como o próprio Lula reconheceu, no tribunal da opinião pública, legalidade nem sempre é sinônimo de moralidade, sobretudo em ano político, quando suspeitas ganham holofotes e vínculos, ainda que indiretos, tornam-se narrativas prontas.
Para completar o roteiro, Lula ainda defendeu o previsível: que Moraes se declare impedido em processos ligados ao banco. Um gesto que, se não resolve o enredo, ao menos evita que o protagonista seja também acusado de dirigir a própria cena.
Há um momento delicado — e muitas vezes irreversível — em que o indivíduo deixa de ser julgado apenas por seus atos e passa a ser interpretado pelas suas proximidades.
Não é a culpa formal que pesa, mas a sombra simbólica. As más companhias não apenas acompanham: elas contaminam, insinuam, reescrevem silenciosamente a narrativa de quem, até então, julgava-se imune à interpretação alheia.
Aristóteles já advertia, com sobriedade quase clínica, que “somos aquilo que repetidamente fazemos”, mas também aquilo com que convivemos, pois a amizade — entendida em sentido amplo — molda o caráter e orienta as escolhas.
Não por acaso, Sêneca alertava com rigor estoico: “Convive com aqueles que podem te tornar melhor e acolhe aqueles que podes tornar melhores”. O inverso, embora menos citado, é igualmente verdadeiro — e mais frequente.
Nietzsche, sempre desconfiado das moralidades fáceis, sugeria que “quem com monstros luta deve cuidar para não se tornar também um monstro”.
O risco não está apenas na transformação íntima, mas na percepção externa: pouco importa se alguém preserva suas convicções em silêncio, se o mundo já o percebe como parte daquilo que ele decidiu tolerar.
A reputação, nesse sentido, não é um espelho fiel da essência, mas um mosaico de sinais — e as companhias são peças de alto contraste.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, indicava que o perigo nem sempre reside em intenções perversas, mas na normalização de contextos duvidosos.
Ao permanecer em ambientes moralmente ambíguos, o indivíduo não apenas se expõe — ele gradualmente legitima o cenário. E, aos olhos públicos, legitimar é, muitas vezes, indistinguível de participar.
No fim, resta a constatação incômoda: a integridade não é apenas uma construção interna, mas também uma curadoria externa.
Escolher com quem se anda é, em alguma medida, escolher como se será lembrado.
Porque, como insinuou Montaigne com sua ironia elegante, “a reputação é uma fumaça, feita da opinião dos outros” — e certas companhias têm o hábito de incendiar o que tocam.


