Na coluna “Lugares e Encontros”, paisagens deixam de ser cenário e se revelam experiência — territórios onde a geografia conversa com a memória, a cultura e o sentido de estar no mundo. Entre o azul insistente do Atlântico e o espelho sereno da Lagoa do Roteiro, a Praia do Gunga se impõe não apenas como paisagem, mas como narrativa — daquelas que o tempo escreve com sal, vento e silêncio.

Situada no município de Roteiro, no litoral sul de Alagoas, o Gunga carrega em sua geografia um privilégio raro: é uma das poucas praias do Brasil abraçadas simultaneamente por mar e lagoa, circundada por extensos coqueirais que parecem sussurrar histórias antigas.
Ali, onde hoje se ergue um dos destinos mais emblemáticos do estado, outrora se desenrolavam rotas de pesca artesanal, travessias rudimentares e a vida simples de comunidades que aprenderam a dialogar com a natureza — não a dominá-la.
O nome “Gunga”, segundo relatos locais, remonta a um antigo proprietário de terras ou a apelidos que o vento espalhou e a memória preservou — como costuma acontecer nos lugares onde a oralidade vale mais que os registros formais.
Ao longo das décadas, o local deixou de ser apenas refúgio de pescadores e se transformou em destino turístico estruturado, sem, contudo, perder sua essência quase intocada em certos ângulos: falésias coloridas que testemunham eras geológicas, dunas móveis que reinventam o cenário e águas que alternam entre o ímpeto e a contemplação.
O Gunga, portanto, não é apenas um cartão-postal — é um ponto de encontro entre tempos: o ancestral e o contemporâneo, o rústico e o desejado, o íntimo e o grandioso.
Como observa o geógrafo Milton Santos, “o espaço é a acumulação desigual de tempos”; e ali, essa máxima se materializa em cada coqueiro inclinado, em cada trilha de areia, em cada embarcação que corta a lagoa ao entardecer.
Há, contudo, algo que escapa às descrições: uma espécie de suspensão do ritmo ordinário, como se o lugar exigisse — com elegância e firmeza — que o visitante desacelere e, mais do que ver, perceba.
E talvez seja justamente esse o convite.
Ir ao Gunga não é apenas visitar uma praia; é permitir-se atravessar uma experiência sensorial e quase existencial, onde o horizonte não delimita — expande. Onde o vento não apenas toca — interpela. Onde o silêncio, por vezes, diz mais que qualquer guia.
Vá.
Mas vá com tempo!
E, sobretudo, com presença.
Quem sabe você não se reencontra com o seu tempo…


