Quando uma escola de samba decide homenagear um presidente em pleno ano eleitoral, ela não escolhe apenas um enredo — escolhe um posicionamento simbólico. E símbolos, como sabemos, não desfilam sozinhos; arrastam consigo contextos, paixões e inevitáveis polarizações.

O Carnaval pode ser palco de crítica social, sátira e exaltação histórica, mas também pode incorrer no equívoco estratégico de confundir celebração cultural com cálculo político mal calibrado.
Homenagear uma figura no exercício do poder, especialmente em período eleitoral, soa menos como tributo histórico e mais como gesto de alinhamento circunstancial. Não se trata de proibir temas políticos — o samba sempre dialogou com o poder —, mas de ponderar o tempo, o tom e a mensagem transmitida. Maquiavel advertia que “os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos”; a aparência de favorecimento pode ser tão danosa quanto o favorecimento em si. Em um ambiente já inflamado, a escolha pode ser percebida como adesão acrítica, e não como reflexão artística.
A derrota, nesse contexto, adquire contornos pedagógicos. Ela expõe o risco de instrumentalizar a arte para fins imediatos. O público — e os jurados — não avaliam apenas a técnica; percebem a narrativa implícita. Quando a avenida vira palanque, a bateria pode até marcar o compasso, mas o discurso desafina. Hannah Arendt lembrava que a esfera pública exige responsabilidade: ações simbólicas têm consequências que ultrapassam a intenção inicial.
Há também uma dimensão moral. A derrota sugere que instituições culturais devem preservar certa autonomia diante do poder constituído. Não por neutralidade ingênua, mas por prudência ética. Como ensinou Aristóteles, a virtude está na justa medida. Exaltar líderes ainda em disputa política rompe essa medida e expõe a agremiação ao julgamento não apenas estético, mas moral.
Que fique, então, a lição: a arte é livre, mas não é imune aos efeitos de suas escolhas. A queda não é apenas técnica; é também reflexiva. Em tempos de polarização, talvez o gesto mais ousado seja manter a crítica sem servilismo e a homenagem sem oportunismo. O samba continuará — mas a responsabilidade simbólica também.


