Em meio a um tabuleiro geopolítico tensionado por velhas rivalidades e novas incertezas, a diplomacia ganha contornos de apelo fraterno.

Neste sábado (21), o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, recorreu às redes sociais para lançar uma mensagem que ecoa mais como um convite do que como um posicionamento estratégico: a união entre os países muçulmanos.
Em tom conciliador, Pezeshkian afirmou não haver intenção de conflito com nações vizinhas, tratando-as como “irmãos” em uma região historicamente marcada por divisões: “Aos países islâmicos e aos nossos queridos vizinhos, vocês são nossos irmãos e não temos nenhuma intenção de entrar em conflito com vocês”, afirmou.
Ao mesmo tempo, apontou Israel como o principal beneficiário dessas rupturas, reacendendo uma narrativa recorrente no cenário político do Oriente Médio.
Entre palavras que mesclam política e simbolismo, o líder iraniano tenta, ao menos no discurso, redesenhar pontes onde por décadas prevaleceram muros.
O Oriente Médio não nasceu como o vemos hoje; foi sendo desenhado — muitas vezes à régua e tinta estrangeiras — sobre ruínas de impérios, identidades fluidas e memórias milenares.
Compreender sua formação é, antes de tudo, reconhecer que ali o tempo não passa: ele se acumula.
Durante séculos, a região esteve sob o domínio de grandes estruturas imperiais, sobretudo o Império Otomano, que organizava a diversidade étnica e religiosa por meio de uma lógica administrativa mais maleável do que os Estados-nação modernos.
Como lembra o historiador Eugene Rogan, “o colapso do Império Otomano não foi apenas o fim de um governo, mas o início de uma longa disputa sobre quem teria o direito de definir fronteiras e identidades no mundo árabe”.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o Oriente Médio foi redesenhado por acordos como Sykes-Picot (1916), que dividiram territórios sem considerar as realidades culturais e históricas locais.
O historiador britânico David Fromkin observa que “as fronteiras criadas no pós-guerra não foram feitas para refletir povos, mas para servir interesses estratégicos das potências vencedoras”.
Assim nasceram países cujas linhas no mapa muitas vezes ignoravam tribos, seitas e tradições, plantando as sementes de conflitos futuros.
A criação do Estado de Israel em 1948 adicionou uma nova e profunda camada de tensão. Para o historiador palestino Rashid Khalidi, “o conflito israelo-palestino não é apenas territorial, mas uma colisão entre narrativas históricas incompatíveis, ambas enraizadas em experiências de perda e pertencimento”.
Desde então, guerras, deslocamentos e disputas ideológicas moldaram a região, ora sob a influência do nacionalismo árabe, ora sob o peso de interesses globais durante a Guerra Fria.
No plano interno, muitos desses países buscaram consolidar identidades nacionais onde antes predominavam lealdades tribais, religiosas ou regionais.
A historiadora Leila Fawaz destaca que “a construção do Estado moderno no Oriente Médio foi, em muitos casos, um projeto de cima para baixo, frequentemente dissociado da experiência vivida pelas populações”. Esse descompasso entre Estado e sociedade ajuda a explicar a recorrência de instabilidades e autoritarismos.
Já no século XXI, intervenções externas, disputas sectárias e movimentos populares — como a Primavera Árabe — revelaram que a história da região permanece em aberto.
O passado não foi resolvido; foi apenas reorganizado em novas formas de tensão.
Como sintetiza o historiador Bernard Lewis, “o Oriente Médio vive simultaneamente em vários tempos: o das antigas civilizações, o das feridas coloniais e o das urgências contemporâneas”.
Sob uma perspectiva existencial, o Oriente Médio nos confronta com uma pergunta universal: até que ponto a identidade de um povo pode ser imposta de fora para dentro?
Entre fronteiras traçadas e vidas vividas, a região revela que a história não é apenas um registro do que foi, mas uma força viva que insiste em moldar o que ainda será.


