Nos bastidores luminosos da economia digital, a vigilância ganha novas camadas de sofisticação — e normalidade.

A Meta, gigante por trás de Facebook, WhatsApp e Instagram, iniciou a instalação de um software em computadores de funcionários nos Estados Unidos capaz de registrar movimentos de mouse, cliques e cada tecla pressionada.
Sob a justificativa de aprimorar modelos de inteligência artificial, a empresa transforma a rotina de trabalho em matéria-prima algorítmica, onde o gesto humano deixa de ser apenas ação e passa a ser dado — bruto, contínuo, explorável.
Segundo memorandos internos revelados pela Reuters, a iniciativa integra um projeto mais amplo: desenvolver agentes de IA capazes de executar tarefas profissionais de forma autônoma.
Na prática, o treinamento dessas máquinas parece exigir um mergulho cada vez mais profundo na intimidade operacional de seus próprios criadores.
Segundo reportagem divulgada no Portal Globo, pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) verificou que os jovens de 18 a 29 anos que atuam nos setores mais vulneráveis aos impactos da chegada da tecnologia têm quase 5% menos chances de conseguir um emprego do que antes da IA.
Em um cenário que flerta com a distopia, o trabalho já não é apenas observado — é absorvido, replicado e, silenciosamente, substituível.
O trabalho, outrora eixo organizador da identidade humana, entra em uma zona de penumbra onde já não se sabe ao certo se molda o homem ou se é por ele lentamente dissolvido.
Em tempos de inteligência artificial, a empregabilidade deixa de ser apenas uma questão econômica e passa a ser um dilema existencial: o que resta do indivíduo quando sua utilidade — medida em eficiência, repetição e previsibilidade — pode ser simulada, replicada e superada por sistemas que não dormem, não hesitam e não reivindicam sentido?
O sociólogo Zygmunt Bauman já advertia que vivemos em uma “modernidade líquida”, na qual estruturas sólidas — como carreira, profissão e estabilidade — se desfazem antes mesmo de se consolidarem.
A inteligência artificial radicaliza essa fluidez: empregos tornam-se provisórios por definição, competências envelhecem em meses, e a promessa de reinvenção constante se transforma, para muitos, em fadiga crônica.
Não se trata apenas de perder trabalho, mas de perder a narrativa que sustentava o cotidiano. Trabalhar sempre foi, também, uma forma de contar a si mesmo quem se é.
Do ponto de vista antropológico, o cenário é igualmente perturbador.
David Graeber, ao analisar os chamados “bullshit jobs”, sugeria que boa parte das ocupações modernas já carecia de sentido real, existindo mais por inércia institucional do que por necessidade concreta.
A IA, ao expor essa redundância, pode tanto libertar quanto aprofundar o vazio: libertar ao eliminar tarefas inúteis, mas também desestruturar o frágil pacto simbólico que mantinha milhões de pessoas integradas a uma lógica de pertencimento.
Sem esse pacto, o cotidiano corre o risco de se tornar um território de deslocamento silencioso.
Há ainda o deslocamento da agência. Se, como observava o sociólogo Manuel Castells, vivemos em uma sociedade em rede onde o poder se organiza pela informação, a ascensão de sistemas capazes de aprender, decidir e agir introduz uma assimetria inédita: o humano deixa de ser o único agente cognitivo relevante.
No cotidiano, isso se traduz em decisões automatizadas sobre crédito, saúde, segurança e até relações afetivas mediadas por algoritmos.
O risco não é apenas a substituição do trabalhador, mas a erosão gradual da autonomia — uma espécie de delegação existencial, na qual pensar, escolher e até errar tornam-se funções terceirizadas.
Ainda assim, não se trata de um destino fechado.
A história, como lembrava o antropólogo Clifford Geertz, é tecida por significados que os próprios humanos atribuem às suas ações.
A inteligência artificial pode inaugurar uma era de precarização ampliada ou, em sentido oposto, forçar a redefinição do valor do tempo, do ócio e da criatividade.
Entre a distopia da irrelevância e a possibilidade de reinvenção, o que está em disputa não é apenas o futuro do trabalho, mas a própria gramática da existência humana: se continuaremos a nos definir pelo que fazemos — ou se, finalmente, teremos de encarar a pergunta mais incômoda de todas — o que somos quando já não somos necessários.


