Entre promessas sedutoras e lacunas científicas, o chamado 3º Congresso Brasileiro de Hormonologia, realizado nos dias 24 e 25 de abril, expôs uma prática que habita uma zona cinzenta da medicina.

Embora o nome evoque rigor acadêmico, a “hormonologia” não figura entre as 55 especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), tampouco encontra respaldo em entidades internacionais como o ABMS, nos Estados Unidos, ou a UEMS, na Europa.
Ainda assim, o termo ganha espaço ao designar terapias hormonais voltadas a fins estéticos e de bem-estar — muitas vezes com o uso de implantes subcutâneos, os chamados “chips da beleza”.
Defensores afirmam tratar desde baixa libido até endometriose, além de prometer emagrecimento e ganho muscular.
Já entidades médicas alertam: faltam evidências sólidas, sobram riscos. No embate entre marketing e medicina baseada em ciência, o corpo humano segue como campo de disputa — e de incertezas.
Há algo de profundamente revelador no fascínio contemporâneo pela chamada “hormonologia”: a tentativa de domesticar o tempo, de negociar com o corpo como se ele fosse uma máquina ajustável à vontade — mais energia, mais desejo, mais forma, menos falha.
Nesse cenário, o hormônio deixa de ser mensageiro biológico para tornar-se promessa existencial.
O médico e cientista Hans Selye, pioneiro nos estudos sobre estresse, já advertia que “não é o estresse que nos mata, mas a forma como reagimos a ele”.
A frase ecoa com força nesse contexto: ao buscar corrigir desconfortos humanos por meio de intervenções hormonais indiscriminadas, não estaríamos, em alguma medida, reagindo de modo apressado às tensões naturais da vida?
O cansaço, a oscilação do humor, o declínio físico — tudo aquilo que compõe a experiência de existir — passa a ser tratado como falha a ser corrigida, e não como linguagem a ser compreendida.
Por outro lado, a endocrinologista britânica Dame Parveen Kumar costuma afirmar que “os hormônios são reguladores finos, não ferramentas grosseiras”.
Sua observação sugere cautela: ao intervir em sistemas complexos com expectativas simplistas, corre-se o risco de produzir mais desordem do que equilíbrio. O corpo, afinal, não é um campo neutro; é uma história em curso, atravessada por genética, ambiente, afetos e tempo.
A hormonologia, enquanto prática não plenamente reconhecida, expõe um dilema mais amplo: até que ponto o bem-estar pode ser induzido quimicamente sem comprometer a integridade do próprio sujeito?
A promessa de controle absoluto sobre o corpo frequentemente ignora que a saúde não é apenas ausência de sintomas, mas uma forma de harmonia — instável, imperfeita, profundamente humana.
Talvez o ponto mais inquietante não esteja nos hormônios em si, mas na expectativa que se deposita sobre eles. Como advertia o médico e filósofo Georges Canguilhem, “o normal não é um dado estatístico, mas um valor que o ser vivo institui”.
Ao terceirizar essa medida para protocolos frágeis ou modismos terapêuticos, corre-se o risco de perder algo essencial: a capacidade de escutar o próprio corpo não como inimigo a ser corrigido, mas como interlocutor de uma existência que, por definição, jamais será perfeitamente regulada.


