Em uma corrida quase coreografada contra o calendário, o governo acelera os últimos ajustes de um programa que promete dar novo fôlego a brasileiros endividados; de olho nas eleições presidenciais.

O percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março, maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
“O cenário já é reconhecido pelo governo federal como um problema que precisa de solução imediata, enquanto a CNC destaca que o endividamento continuará avançando até os efeitos da flexibilização da política monetária chegarem efetivamente ao consumidor final”, diz, em nota, a entidade.
A proposta, ainda em fase de lapidação, deve abrir caminho para a renegociação de dívidas já nas próximas semanas, com anúncio previsto até o fim de abril.
Atento a este cenário, e de olho nas eleições de outubro, o Governo acelera o passo.
A intenção é clara — e carregada de simbolismo: fazer a iniciativa florescer em maio, sob o selo do Dia do Trabalhador, como quem tenta reescrever, ao menos por ora, a relação entre o bolso apertado e a esperança.
Há momentos na história em que o Estado, seduzido pela urgência do aplauso, decide gastar antes de pensar — e aliviar antes de estruturar.
É nesse intervalo delicado entre a necessidade social e o cálculo econômico que germinam as políticas de feição populista: generosas na superfície, mas frequentemente indiferentes às engrenagens profundas que sustentam a própria economia que pretendem salvar.
O economista Milton Friedman advertia que “não existe almoço grátis”, uma frase que, mais do que um bordão, funciona como epitáfio antecipado de muitas aventuras fiscais.
Ao ampliar gastos ou conceder benefícios sem lastro consistente, o governo pode até produzir um alívio imediato — quase terapêutico —, mas frequentemente transfere o custo para o futuro, seja na forma de inflação, seja na corrosão da confiança institucional.
John Maynard Keynes, tantas vezes invocado para justificar intervenções estatais, também ponderava, com lucidez, que o desafio não está em gastar, mas em saber quando parar.
A inflação, nesse contexto, não surge como acidente, mas como consequência previsível de uma economia tensionada além de sua capacidade produtiva.
Friedrich Hayek, por sua vez, alertava que manipular artificialmente os sinais do mercado — como crédito e consumo — pode gerar ciclos ilusórios de prosperidade, seguidos por ajustes dolorosos. O que hoje se apresenta como alívio pode, amanhã, revelar-se desordem.
Do ponto de vista existencial, a questão é ainda mais inquietante: até que ponto uma sociedade aceita viver sob o conforto das soluções imediatas, mesmo sabendo — ou suspeitando — que elas comprometem o amanhã?
O populismo econômico não é apenas uma escolha técnica; é, antes, uma aposta moral sobre o tempo, uma tentativa de domesticar o futuro em nome das angústias do presente.
Assim, o equilíbrio fiscal deixa de ser mera abstração contábil para se tornar um pacto intergeracional. Ignorá-lo, como quem adia uma dívida incômoda, pode custar não apenas a estabilidade dos números, mas a própria credibilidade de um país diante de si mesmo.
Afinal, como lembrava o economista Rudi Dornbusch, “as crises levam muito mais tempo para acontecer do que se imagina, e depois acontecem muito mais rápido do que se esperava”. E, quando chegam, raramente pedem licença.


