No encontro entre criatividade comunitária e economia solidária, uma pequena cidade do litoral alagoano começa a chamar atenção de quem acredita que o desenvolvimento também pode nascer de dentro para fora.

Em Piaçabuçu, a união entre cooperação, empreendedorismo e confiança coletiva deu origem a uma experiência que promete transformar a forma como o dinheiro circula na comunidade.
A criação de uma moeda social vinculada ao banco comunitário “É da Gente” surge como parte de uma iniciativa inovadora que conecta uma cooperativa de crédito a um banco de economia solidária — uma articulação considerada pioneira em Alagoas.
A proposta amplia o acesso a serviços financeiros e garante novos caminhos de investimento para pequenos empreendedores locais.
“A experiência de Piaçabuçu demonstra como o cooperativismo e a economia solidária podem criar soluções inovadoras para fortalecer a economia local, ampliar o acesso a serviços financeiros e gerar oportunidades para a população. O que temos aqui é uma experiência única: uma cooperativa de crédito atuando como aporte financeiro para um banco comunitário que opera com moeda social”, destaca o Secretário de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Sedics), Benedito Júnior.
Mais do que uma ferramenta econômica, a moeda social fortalece a circulação de recursos dentro da própria cidade, incentivando o consumo local e o espírito cooperativo.
O modelo já começa a despertar interesse de outras regiões que buscam alternativas sustentáveis para impulsionar suas economias, mostrando que, quando a comunidade se une, o desenvolvimento pode ganhar sotaque local e rosto coletivo.
Em tempos em que a economia frequentemente parece girar em torno de grandes centros financeiros e decisões distantes da realidade cotidiana, experiências de economia solidária recordam uma verdade antiga: a riqueza de uma sociedade não se mede apenas pelo volume de capital acumulado, mas pela forma como ele circula entre as pessoas.
A lógica cooperativista rompe com a ideia de que o progresso precisa necessariamente nascer da competição.
Ao contrário, ela demonstra que a colaboração pode ser uma força produtiva poderosa, capaz de fortalecer comunidades inteiras.
O economista e prêmio Nobel Muhammad Yunus, pioneiro do microcrédito, resume esse espírito ao afirmar: “O crédito não é apenas dinheiro; é uma oportunidade de libertar o potencial humano.”
Nesse sentido, quando uma comunidade cria mecanismos próprios de circulação de recursos, ela também cria novas possibilidades de dignidade e autonomia.
A economia solidária, inspirada em princípios do cooperativismo moderno, resgata valores que muitas vezes se perdem no ritmo impessoal dos mercados globais: confiança, pertencimento e responsabilidade coletiva.
O economista Karl Polanyi já alertava que a economia não pode ser dissociada da vida social, pois “o sistema econômico está enraizado nas relações humanas”.
Assim, iniciativas comunitárias mostram que o dinheiro pode ser mais do que um instrumento de troca — pode tornar-se também um elo de solidariedade.
Sob essa perspectiva, o bem-estar comum nasce quando a economia deixa de ser apenas um mecanismo de acumulação e passa a funcionar como uma rede de reciprocidade, na qual prosperar não significa vencer o outro, mas crescer junto com ele.
Em experiências desse tipo, cada pequeno comércio fortalecido, cada empreendedor apoiado e cada moeda que permanece na comunidade representa algo maior: a reconstrução do sentido humano da própria economia.


