Entre curtidas, filtros e algoritmos que conhecem melhor os jovens do que muitos adultos, a França resolveu apertar o botão de “controle parental” em escala nacional.

O Senado francês aprovou um projeto de lei que pretende proibir o acesso de menores de 15 anos às redes sociais — ou, ao menos, àquelas consideradas potencialmente nocivas.
A proposta, que ainda ecoa entre aplausos cautelosos de pais e suspiros contrariados de adolescentes, tenta equilibrar liberdade digital e proteção emocional.
Com apoio do presidente Emmanuel Macron, a medida busca entrar em vigor já no próximo ano letivo, alinhando o país a uma tendência global que transforma o uso das redes em um campo de disputa entre gerações.
No fim das contas, a pergunta que paira no ar não é apenas “quem pode acessar?”, mas “o que, afinal, estamos permitindo que nos acesse?”.
Porque, na era digital, talvez o maior risco não seja estar online — mas nunca conseguir sair.
Há algo de silenciosamente inquietante na relação contemporânea entre o ser humano e as redes sociais: não se trata mais apenas de uso, mas de vínculo — e, em muitos casos, de dependência.
O que antes era ferramenta tornou-se ambiente; o que era meio converteu-se em medida de valor, afeto e pertencimento. Nesse cenário, a regulação estatal surge como tentativa de impor limites a um território onde o próprio indivíduo, paradoxalmente, já não consegue se autolimitar.
O psicólogo Adam Alter, autor de Irresistible, afirma que “as tecnologias modernas são projetadas não apenas para serem usadas, mas para serem difíceis de abandonar”.
Não se trata de fraqueza individual, mas de uma arquitetura deliberada de captura da atenção.
Já o psiquiatra Manfred Spitzer, crítico contundente da hiperexposição digital, alerta que “as mídias digitais podem agir como drogas comportamentais, especialmente em cérebros ainda em desenvolvimento”.
A analogia, longe de ser retórica, revela um ponto sensível: há uma engenharia psíquica em curso, operando na fronteira entre desejo e compulsão.
Nesse contexto, a regulação estatal deixa de ser mero paternalismo para assumir contornos de responsabilidade coletiva.
Não se trata de interditar a liberdade, mas de reconhecer que a liberdade pressupõe condições mínimas de consciência e autonomia — ambas frequentemente corroídas pelo uso excessivo e acrítico das plataformas.
Como observa a psicóloga Sherry Turkle, do MIT, “estamos conectados o tempo todo, mas cada vez mais sozinhos”. A solidão, aqui, não é ausência de contato, mas ausência de profundidade.
No entanto, há um risco igualmente relevante: o de que o Estado, ao tentar proteger, ultrapasse o limite e passe a tutelar excessivamente a experiência individual.
A linha que separa proteção de controle é tênue — e historicamente, muitas vezes ignorada. A regulação, portanto, exige mais do que boa intenção; exige precisão ética, transparência e constante vigilância democrática.
No fundo, a questão não é apenas tecnológica ou jurídica, mas existencial.
O que está em jogo é a qualidade da nossa atenção, a integridade da nossa subjetividade e a capacidade de sustentar o silêncio — esse espaço raro onde o pensamento amadurece sem a urgência de ser imediatamente compartilhado.
Talvez regular as redes seja, em última instância, uma tentativa de devolver ao indivíduo aquilo que ele foi, pouco a pouco, entregando: o domínio sobre si mesmo.


