Uma cena de ruptura familiar transformada em documento histórico consagrou-se no mais alto patamar do fotojornalismo mundial.

A imagem “Separated by ICE”, da veterana fotojornalista Carol Guzy, foi eleita a Foto do Ano de 2026 pelo World Press Photo, com resultado divulgado nesta quarta-feira (23).
O registro captura o instante em que duas meninas se agarram ao pai, um migrante equatoriano sem antecedentes criminais, no momento em que ele é detido por agentes de imigração logo após uma audiência em Nova York.
A fotografia, marcada pela tensão crua e pela vulnerabilidade exposta, integra um projeto mais amplo que documenta operações do ICE em tribunais — prática intensificada após mudanças nas diretrizes em 2025.
A nova política, que passou a permitir prisões em locais antes considerados sensíveis, como escolas e hospitais, ampliou significativamente o alcance das detenções, atingindo também indivíduos sem histórico criminal.
No enquadramento preciso de Guzy, a política migratória deixa de ser abstração e assume forma humana: o instante em que a lei atravessa o afeto.
Fotografar é, antes de tudo, um gesto de resistência contra o esquecimento.
A câmera não apenas captura a luz — ela interpreta o mundo, recorta o tempo e o submete à consciência.
Há, nesse ato, uma paixão silenciosa e quase obsessiva: a de tornar visível aquilo que a pressa cotidiana insiste em apagar.
Como afirmou Henri Cartier-Bresson, “fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração” — uma convergência rara entre técnica e sensibilidade, razão e pulsão.
Susan Sontag, ao analisar a fotografia como linguagem, advertiu que toda imagem é também um ato de apropriação.
Fotografar seria, portanto, participar daquilo que se observa, ainda que à distância.
Não há neutralidade possível: o enquadramento já é escolha, e toda escolha carrega valores, omissões e intenções. Nesse sentido, a paixão pela fotografia não é apenas estética — é ética.
O fotógrafo não apenas registra o mundo; ele sugere como o mundo deve ser visto.
Sebastião Salgado, por sua vez, sempre defendeu que a fotografia pode ser uma forma de consciência social.
Ao documentar trabalhadores, migrantes e territórios esquecidos, ele não apenas revela — ele interpela. “A fotografia é a memória da sociedade”, afirmou, indicando que cada imagem carrega a responsabilidade de testemunhar aquilo que muitos prefeririam ignorar.
A lente, nesse contexto, torna-se instrumento de denúncia e, ao mesmo tempo, de dignidade.
Mas há também uma dimensão mais íntima e quase metafísica nesse ofício.
Roland Barthes, em sua reflexão sobre a imagem, sugeriu que toda fotografia é uma prova irrefutável de que algo existiu — e, simultaneamente, de que já não existe mais.
Fotografar é, assim, lidar com a presença e a ausência, com a vida que pulsa e o tempo que escapa. É um confronto constante com a finitude.
Dentro de uma sociedade saturada por imagens, a função social da fotografia se torna ainda mais complexa. Se por um lado ela informa, denuncia e sensibiliza, por outro corre o risco de banalizar o sofrimento pela repetição exaustiva.
Cabe ao fotógrafo — e também ao observador — resgatar o sentido, resistir à indiferença e restaurar o impacto humano por trás de cada frame.
No fim, a paixão pela fotografia talvez resida justamente nessa tensão: entre revelar e ocultar, entre preservar e perder, entre olhar e realmente ver.
Como provocou Dorothea Lange, “a câmera é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem câmera”.
E talvez seja essa sua função mais profunda dentro de uma sociedade: não apenas mostrar o mundo, mas reeducar o olhar para que o humano, mesmo fragmentado, ainda possa ser reconhecido.


