A corrida presidencial de 2026 ganhou novos contornos após a divulgação da mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg. Dark Horse (Azarão), filme contando a vida de Bolsonaro, está o centro da alteração eleitoral.

O levantamento aponta que o presidente Lula ampliou vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, poucos dias depois da repercussão envolvendo o caso Banco Master e a divulgação de áudios ligados ao parlamentar.
Segundo jornal O Globo, integrantes da cúpula do PL avaliam que, de 10 a 15 dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.
O cenário revela como crises políticas, narrativas públicas e desgaste de imagem continuam exercendo forte influência sobre o humor do eleitorado em um ambiente político cada vez mais sensível à velocidade da informação.
Entre pesquisas, escândalos e disputas de percepção, a pré-campanha presidencial começa a demonstrar que, no Brasil contemporâneo, reputação política pode oscilar na mesma velocidade das manchetes.
Em política, poucas armas são tão rápidas, eficientes e destrutivas quanto a difamação.
Uma campanha eleitoral pode levar anos para construir uma imagem pública sólida, mas bastam alguns dias de desgaste contínuo, escândalos sucessivos ou narrativas emocionalmente negativas para comprometer candidaturas inteiras. No mundo hiperconectado das redes sociais, reputações passaram a ser simultaneamente patrimônio político e alvo permanente de guerra estratégica.
O marqueteiro norte-americano James Carville, responsável pela campanha vitoriosa de Bill Clinton em 1992, costumava afirmar que “percepção é realidade” no ambiente eleitoral. Em grande medida, eleições contemporâneas deixaram de ser disputadas apenas em torno de propostas objetivas; elas se movem sobretudo pela disputa de narrativas emocionais, confiança pública e imagem simbólica dos candidatos.
O cientista político Giovanni Sartori observava que a política moderna foi profundamente transformada pela lógica da comunicação de massa. A televisão primeiro, e as redes sociais depois, converteram campanhas eleitorais em batalhas contínuas pela atenção, pela emoção e pela construção instantânea de reputações.
Nesse cenário, campanhas difamatórias operam como mecanismos de erosão psicológica da confiança pública. O objetivo raramente é apenas provar algo juridicamente; muitas vezes basta instalar dúvida, suspeita ou desgaste moral no imaginário coletivo.
O cientista político Harold Lasswell, pioneiro nos estudos sobre propaganda política, afirmava que a repetição constante de mensagens emocionalmente fortes tende a moldar percepções públicas mesmo quando fatos ainda permanecem indefinidos ou controversos.
A História eleitoral mundial oferece inúmeros exemplos.
Nos Estados Unidos, a campanha presidencial de 1988 entre George H. W. Bush e Michael Dukakis tornou-se célebre pelo uso agressivo do chamado “Willy Horton ad”, peça publicitária que associava Dukakis à criminalidade e destruiu boa parte de sua competitividade eleitoral.
No Brasil, talvez um dos exemplos mais emblemáticos tenha ocorrido em 1989, quando a reta final da disputa entre Fernando Collor e Lula foi marcada pela exploração intensa de escândalos, medos sociais e narrativas negativas. Desde então, campanhas eleitorais brasileiras passaram progressivamente a incorporar estratégias de desgaste reputacional como elemento central da disputa política.
O marqueteiro brasileiro Duda Mendonça costumava afirmar que campanhas não vencem apenas construindo qualidades próprias; frequentemente vencem destruindo emocionalmente a confiança no adversário.
O problema é que a difamação política produz efeitos que ultrapassam candidatos individuais. Ela deteriora o ambiente democrático como um todo.
O filósofo Hannah Arendt alertava que sociedades submetidas à manipulação permanente da verdade acabam mergulhando em profundo estado de desconfiança coletiva. Quando tudo parece suspeito, contraditório ou manipulável, a própria noção de realidade pública começa a enfraquecer.
Existe ainda impacto psicológico relevante sobre o eleitorado.
O sociólogo Zygmunt Bauman observava que sociedades contemporâneas vivem sob lógica crescente de insegurança emocional e hiperestimulação informacional. Campanhas difamatórias exploram exatamente esse ambiente de ansiedade, medo e indignação constante.
Além disso, ataques sucessivos frequentemente geram consequências físicas e emocionais severas para os próprios candidatos e suas famílias. Ansiedade extrema, estresse crônico, depressão e esgotamento psicológico tornaram-se cada vez mais comuns no ambiente político moderno.
O cientista político Bernard Manin observa que democracias contemporâneas vivem crescente personalização da política. O debate programático frequentemente cede espaço à destruição moral da figura individual do adversário.
Nesse contexto, redes sociais potencializaram drasticamente o alcance e a velocidade das campanhas negativas. O filósofo Byung-Chul Han afirma que a sociedade digital favorece impulsividade emocional, polarização e julgamentos instantâneos. A reputação pública tornou-se extremamente vulnerável à viralização de acusações, recortes e interpretações.
O problema central não está apenas na crítica política legítima — elemento indispensável da democracia —, mas na substituição progressiva do debate racional pela lógica permanente da aniquilação reputacional.
O jurista norte-americano Cass Sunstein adverte que democracias saudáveis dependem minimamente de confiança institucional e disposição coletiva ao diálogo. Quando campanhas passam a operar exclusivamente sob lógica de destruição moral do adversário, o resultado costuma ser aumento da radicalização e enfraquecimento do próprio tecido democrático.
No fundo, campanhas difamatórias revelam uma triste contradição contemporânea: nunca houve tanto acesso à informação, mas talvez nunca tenha sido tão fácil manipular emocionalmente percepções públicas.
Porque, no ambiente eleitoral moderno, destruir uma reputação muitas vezes exige apenas segundos de exposição viral; reconstruí-la, porém, pode levar uma vida inteira — quando ainda é possível reconstruí-la.


