O crescimento acelerado do trabalho por aplicativos no Brasil revela não apenas uma nova dinâmica do mercado, mas também as desigualdades que persistem nas plataformas digitais. Dados da Pnad Contínua, do IBGE, mostram que o número de pessoas atuando nesse modelo aumentou 25,4% entre 2022 e 2024, saltando de 1,3 milhão para quase 1,7 milhão de trabalhadores — um acréscimo de 335 mil pessoas em apenas dois anos.

Nesse universo em expansão, contudo, a presença feminina ainda é reduzida e marcada por desafios específicos.
Embora as mulheres representem 41,2% da população ocupada no país, elas correspondem a apenas 16,1% entre os entregadores por aplicativo, um cenário agravado por relatos de assédio, ausência de políticas de gênero e infraestrutura precária, fatores que expõem as barreiras adicionais enfrentadas por quem tenta conquistar espaço nesse segmento.
Refletir sobre a condição dos entregadores não é apenas discutir uma categoria profissional, mas questionar o próprio sentido do trabalho na sociedade contemporânea.
A expansão vertiginosa do trabalho por aplicativos expõe uma das contradições mais marcantes da modernidade: quanto mais a tecnologia promete autonomia, mais ela pode produzir novas formas de dependência.
Os entregadores tornaram-se personagens centrais da vida urbana contemporânea — conectando restaurantes, farmácias, mercados e consumidores em uma engrenagem que não pode parar.
No entanto, por trás da eficiência quase instantânea que chega às portas das casas, existe uma realidade marcada por instabilidade, jornadas extensas e ausência de garantias sociais.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman já advertia que a sociedade contemporânea transformou o trabalho em algo cada vez mais “líquido”, instável e imprevisível. Para ele, a modernidade tardia dissolve estruturas de proteção que antes davam alguma segurança ao trabalhador.
Nesse cenário, o entregador de aplicativo encarna a figura do trabalhador do século XXI: conectado, avaliado por algoritmos e permanentemente pressionado por metas invisíveis.
A promessa de liberdade — escolher horários, decidir quando trabalhar — muitas vezes esconde a necessidade constante de permanecer online para garantir renda mínima.
Outro sociólogo fundamental para compreender essa dinâmica é Richard Sennett, que descreveu como a flexibilização do trabalho pode corroer o caráter e a identidade profissional.
Em sua análise, quando o vínculo laboral se torna frágil e temporário, o trabalhador perde referências de estabilidade, pertencimento e reconhecimento social.
No caso dos entregadores, essa fragilidade se manifesta em avaliações de clientes, bloqueios repentinos nas plataformas e rendimentos imprevisíveis — fatores que alimentam ansiedade, insegurança e sensação de descartabilidade.
Apesar disso, há um paradoxo evidente: raramente um serviço foi tão essencial e, ao mesmo tempo, tão invisibilizado.
Durante a pandemia e mesmo após ela, os entregadores garantiram o funcionamento de cadeias inteiras de consumo, permitindo que cidades continuassem operando em meio às restrições e às mudanças de hábitos.
O sociólogo Guy Standing, ao discutir a ascensão do chamado “precariado”, alerta que esse grupo de trabalhadores vive sob permanente instabilidade econômica e emocional, o que pode gerar frustração social e desgaste psicológico profundo.
Os impactos na saúde mental são inevitáveis.
Longas jornadas nas ruas, pressão por rapidez, exposição a riscos de trânsito, insegurança financeira e ausência de proteção institucional compõem um cenário de tensão permanente.
Não se trata apenas de fadiga física, mas de uma forma silenciosa de desgaste existencial: a sensação de que o trabalho sustenta a cidade, mas que o trabalhador permanece à margem dela.
Assim, refletir sobre a condição dos entregadores não é apenas discutir uma categoria profissional, mas questionar o próprio sentido do trabalho na sociedade contemporânea.
Afinal, em uma economia cada vez mais mediada por aplicativos e algoritmos, a verdadeira questão talvez seja menos tecnológica e mais humana: como garantir dignidade, reconhecimento e equilíbrio emocional àqueles que mantêm a vida cotidiana em movimento?


