
Dilema: O que é preferível: Uma pessoa falsa, mas 100% disponível ou uma pessoa verdadeira, mas 100% indisponível?
A pergunta seduz pela aparência de escolha, mas, na prática, descreve duas formas distintas de ausência.
A pessoa falsa, ainda que “100% disponível”, oferece presença sem substância. Está ali, responde, participa — mas aquilo que entrega é encenação, cálculo ou conveniência.
É uma disponibilidade que ocupa espaço, mas não constrói vínculo.
Como advertiria o filósofo Martin Buber, trata-se de uma relação do tipo “Eu-Isso”: o outro não é verdadeiramente encontrado, apenas utilizado ou tolerado.
Já a pessoa verdadeira, porém “100% indisponível”, carrega autenticidade, mas a mantém inacessível. Há valor, mas não há encontro.
E sem encontro, a verdade se torna quase abstrata — uma espécie de virtude estéril. Aristóteles já sugeria que a amizade exige convivência; sem presença, até a sinceridade perde função.
Então o dilema é imperfeito: um oferece forma sem essência; o outro, essência sem forma.
Se for obrigatório escolher, a resposta depende do que você valoriza mais no curto prazo: companhia imediata (mesmo ilusória), ou integridade, ainda que distante.
Mas, olhando com mais rigor — e talvez um pouco de ironia —, nenhuma das duas opções sustenta uma relação digna.
A primeira cansa pela falsidade; a segunda frustra pela ausência.
O ideal não está entre elas, mas fora delas: alguém suficientemente verdadeiro e suficientemente disponível.
Porque, no fim, como poderíamos realmente “ter” alguém que não é real — ou que nunca está?


