Vivemos tempos em que o indivíduo, cada vez mais, é elevado à condição de centro absoluto de seu universo.

A sociedade contemporânea, marcada pelo hiperindividualismo, celebra a autonomia pessoal em detrimento da coletividade.
Como já alertava Zygmunt Bauman, em sua análise da modernidade líquida, as relações tornaram-se frágeis, descartáveis, e os laços humanos cada vez mais rarefeitos: “Os relacionamentos são mantidos enquanto proporcionam satisfação imediata”.
No entanto, este culto ao “eu” frequentemente descamba para o egoísmo, onde a busca por autorrealização ignora o outro.
Jean-Paul Sartre, um dos pilares do existencialismo, afirmava: “O inferno são os outros”, frase muitas vezes mal compreendida.
Sartre não desprezava o outro, mas denunciava a angústia que surge ao sermos espelhos e julgadores uns dos outros, o que exige uma constante responsabilidade por nossas escolhas em um mundo sem garantias divinas. Isso nos obriga a encarar o fardo da liberdade e o desafio da convivência.
Em contraste com esse isolamento existencial, o companheirismo surge como resistência e virtude.
É no encontro com o outro que o ser se revela e se completa, como destaca Martin Buber em sua filosofia do “Eu-Tu”: só no verdadeiro diálogo, onde não há objetificação, nasce a comunhão.
Da mesma forma, a tradição bíblica ensina que “Melhor é serem dois do que um… pois se um cair, o outro levanta o seu companheiro”. (Eclesiastes 4:9-10).
A solidariedade é, portanto, um chamado espiritual e existencial.
Se o individualismo é inevitável na busca por autenticidade, o egoísmo não é.
A liberdade do ser, como propôs Simone de Beauvoir, só é plena quando reconhece a liberdade do outro.
A ética existencial, assim como a fé vivida, clama por um equilíbrio: ser si mesmo sem fechar-se ao outro; viver em comunhão sem perder a singularidade.
Neste paradoxo entre o eu e o nós, entre a liberdade e a responsabilidade, somos convidados a viver não apenas por nós, mas com e para o outro.
Ao fim e ao cabo, o encontro SEMPRE está no outro; inclusive e principalmente sobre nós.
O equilíbrio entre o Eu e o Nós: um verdadeiro nó a ser desatado!


