
Por Rui Guerra
A jornada 5×2 aumenta apenas 9% ao mês na necessidade de contratação de mão-de-obra para atividades que a usem intensivamente.
Considerando os encargos trabalhistas admite-se que o impacto final seja de 18% sobre os gastos atuais, 20% no máximo. Se na matriz de custos de uma determinada empresa a MO representar 33%, o impacto final no preço será de 7%, suportável por alguma empresas se for planejado o alcance da meta no novo regime.
Só que o debate sobre jornada de trabalho no Brasil entrou num território perigoso. A emoção começou a substituir a análise econômica.
Nas redes sociais, a discussão virou quase um teste moral. Quem critica o 6×1 é tratado como defensor da dignidade humana. Quem alerta para os custos da mudança passa rapidamente a ser visto como inimigo do trabalhador.
Mas economia raramente funciona movida por emoção.
Funciona por equilíbrio.
E talvez o primeiro erro esteja justamente na tentativa de transformar toda atividade econômica numa única realidade. A Câmara já decidiu que o 6×1 é perverso e que o 5×2 é inevitável, como se existisse uma fórmula universal capaz de atender igualmente um hospital, um escritório de advocacia, um restaurante, uma fábrica e um supermercado.
Só que não é exatamente assim. Todas as empresas não tem o mesmo tamanho, o mesmo acesso a crédito, o mesmo padrão tecnológico e a mesma margem de lucro.
Uma cidade moderna simplesmente não para. Enquanto parte da sociedade descansa, outra parte mantém tudo funcionando. Há alguém operando uma UTI, preparando pão, fornecendo alimentação, recolhendo lixo, abastecendo supermercados, dirigindo ônibus, fazendo segurança, limpando corredores, recebendo hóspedes ou mantendo máquinas industriais em funcionamento.
Sempre foi dessa forma.
O próprio crescimento das cidades nasceu dessa necessidade de funcionamento contínuo.
Durante décadas, a lógica econômica parecia relativamente simples. Quanto mais horas disponíveis de trabalho humano, maior a capacidade de produção, atendimento e funcionamento da economia. Mas o mundo começou a mudar silenciosamente. A tecnologia alterou profundamente a relação entre tempo e produtividade.
Hoje, uma empresa pode produzir muito mais com menos pessoas. Um software substitui departamentos inteiros. Um aplicativo elimina etapas que antes exigiam dezenas de funcionários. Um terminal automático faz em segundos aquilo que antes dependia de filas, formulários e atendimento presencial.
E talvez seja exatamente aí que o debate brasileiro esteja desencontrado da realidade.
Países ricos conseguiram reduzir jornadas porque enriqueceram antes. Construíram produtividade antes de distribuir tempo livre. Investiram durante décadas em educação técnica, infraestrutura, automação, logística e mecanização. Quando reduziram horas trabalhadas, já produziam muito mais valor por trabalhador.
O Brasil tenta fazer a travessia pelo caminho inverso. Deseja reduzir jornada enquanto ainda convive com baixa produtividade média, serviços pouco mecanizados, juros elevados e enorme dependência de mão de obra presencial.
Isso não significa que a mudança seja errada. Significa apenas que ela terá consequências econômicas inevitáveis.
E talvez a principal delas seja acelerar brutalmente a automação.
O empresário não faz contas ideológicas. Faz contas matemáticas. Se o custo da hora humana sobe, ele começa imediatamente a procurar alternativas. Não por maldade. Por sobrevivência.
A substituição já começou há muito tempo. Caixas automáticos, aplicativos de entrega, autoatendimento, inteligência artificial, sistemas integrados, robôs industriais e plataformas digitais não surgiram por acaso. Surgiram porque produtividade virou questão de sobrevivência econômica.
A diferença é que agora essa pressão tende a aumentar.
Grandes empresas provavelmente conseguirão atravessar melhor essa mudança. Possuem capital, escala e capacidade tecnológica para automatizar operações. Já o pequeno empresário talvez viva o momento mais delicado. O dono do pequeno restaurante, da padaria, do mercadinho, da oficina ou da pousada depende diretamente de gente trabalhando presencialmente. Muitas vezes opera com margens pequenas e pouca capacidade de investimento.
Enquanto a grande empresa troca pessoas por máquinas, o pequeno negócio corre o risco de simplesmente perder competitividade.
Existe ainda uma transformação silenciosa acontecendo dentro das casas.
Durante muito tempo, parte da classe média brasileira viveu apoiada numa característica rara no mundo desenvolvido: mão de obra doméstica relativamente acessível. Empregadas fixas, cozinheiras, babás e motoristas fizeram parte da estrutura social urbana brasileira durante décadas.
Mas isso já começou a mudar há algum tempo. E tende a mudar ainda mais.
A tecnologia também entrou dentro das residências. Lava-louças, comida pronta, lavanderias, aplicativos, robôs aspiradores e serviços terceirizados começam lentamente a substituir aquilo que antes dependia de empregados permanentes. Em muitos casos, não será mais uma escolha ideológica. Será apenas uma questão de custo.
Ao mesmo tempo, as novas gerações passaram a valorizar algo que seus pais muitas vezes sacrificaram: tempo. Tempo para a família, descanso, mobilidade, lazer e saúde mental.
Essa mudança cultural é real.
Mas existe uma pergunta que continua sem resposta fácil.
Quem sustentará economicamente essa transição?
Porque nenhuma sociedade consegue distribuir conforto sem antes gerar riqueza suficiente para financiá-lo. O tempo livre também possui custo econômico. E ele precisa ser sustentado por produtividade.
Talvez o erro do debate brasileiro esteja justamente na tentativa de transformar uma discussão econômica complexa numa disputa moral simplificada. Nem o 6×1 é automaticamente desumano. Nem o 5×2 representa, por si só, evolução econômica garantida.
Tudo depende da capacidade da economia produzir mais valor com menos tempo de trabalho humano.
E talvez essa seja a verdadeira questão escondida atrás da discussão das jornadas.
O Brasil não está apenas debatendo quantos dias alguém deve trabalhar.
Está começando a descobrir, talvez tarde, que o mundo entrou numa era em que produtividade, tecnologia e automação decidirão quais empresas sobrevivem, aprofundam seu processo de digitalização e reduzem a mão de obra sem precisar contratar outras pessoas; quais empresas não terão como entrar nesse processo e encolherão no mercado; quais pequenos negócios desaparecerão absorvido pelos grandes aumentando a centralização e transformam- se em MEI; quais profissões permanecem relevantes e quais modelos econômicos conseguem continuar de pé.
Sobre a Autor:
Rui Guerra é Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pós-graduado em Pavimentação Rodoviária/IPR e Elaboração e Análise de Projetos Econômicos/ Universidade de Brasília (UnB), com ampla experiência profissional nas áreas pública e privada.
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