Sob o céu generoso de Alagoas — onde o sol não pede licença e o vento parece ter vocação para o futuro — o estado apresentou, nesta terça-feira (7), uma nova bússola energética.

Em sua 58ª reunião, o Conselho Estadual de Políticas Energéticas (Cepe) foi palco da estreia do Novo Atlas Solar e Eólico, um mapa que não apenas localiza potenciais, mas anuncia ambições.
Entre gráficos, projeções e debates, governo, setor produtivo e sociedade civil se reuniram para algo maior que números: desenhar caminhos.
Presidido pela secretária Alice Beltrão e pelo superintendente Bruno Macedo, o encontro inaugurou o calendário de 2026 com um recado claro — Alagoas não quer apenas acompanhar a transição energética; pretende protagonizá-la, transformando luz e vento em desenvolvimento.
Há algo de profundamente simbólico no gesto humano de aprender a capturar o sol e domesticar o vento.
Não se trata apenas de tecnologia — é, antes, uma tentativa de reconciliar progresso e permanência, desejo e limite. As novas matrizes energéticas surgem, assim, como mais do que alternativas: são uma espécie de espelho moral da nossa época.
O filósofo Hans Jonas advertia que “a civilização tecnológica exige uma ética da responsabilidade proporcional ao seu poder”.
E talvez seja exatamente isso que esteja em jogo quando falamos de energia limpa: a capacidade de sustentar o próprio futuro sem consumir, no presente, aquilo que ainda nem chegou a existir. Migrar para fontes renováveis não é apenas uma escolha técnica — é um posicionamento ético diante das gerações que ainda não têm voz.
Ao mesmo tempo, há uma ironia silenciosa nesse avanço.
Durante séculos, o ser humano tentou se impor à natureza, explorá-la, subjugá-la.
Agora, precisa reaprender a dialogar com ela.
Como observou o sociólogo Ulrich Beck, vivemos em uma “sociedade de risco”, onde os próprios triunfos da modernidade produzem ameaças globais. O vento e o sol, antes ignorados como forças dispersas, tornam-se aliados — quase como se a natureza, paciente, aguardasse nossa maturidade.
Mas não convém romantizar. A transição energética também expõe desigualdades, interesses e disputas. Quem controla a energia, controla narrativas, economias e destinos. Nesse cenário, pensar novas matrizes é também perguntar: a quem servirá essa nova luz?
Ainda assim, há um sopro de esperança — literal e metafórico.
Ao transformar recursos inesgotáveis em potência, a humanidade ensaia uma rara forma de inteligência: aquela que não esgota, mas renova.
Como escreveu Albert Camus, “no meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível”. Talvez esse “verão” agora seja compartilhado — irradiando não apenas energia, mas a possibilidade de um futuro menos predatório e mais consciente.
No fim, a questão não é apenas como produzimos energia, mas que tipo de civilização queremos iluminar.


