Em meio a contundentes e lúcidos discursos, a saúde materna de Arapiraca volta ao centro do debate — não por avanços, mas por ausências e, principalmente, incoerências governamentais.

Durante sessão na Câmara Municipal, o Vereador Rogério Nezinho expôs, com contundência, aquilo que muitas gestantes já conhecem na prática: o abismo entre a retórica oficial e o cotidiano enfrentado por quem precisa dar à luz.
A crítica mira diretamente a gestão do prefeito Luciano Barbosa, cuja defesa de que os nascimentos ocorram no próprio município contrasta, de forma quase irônica, com o histórico de fechamento de unidades essenciais.
Afinal, recomendar que se fique é simples — difícil é garantir onde.
Segundo o parlamentar, o desmantelamento progressivo de maternidades e hospitais ao longo dos anos teria transformado o que deveria ser um momento de acolhimento em uma verdadeira peregrinação por atendimento. Cinco unidades a menos não são apenas números: são portas fechadas, corredores vazios e, sobretudo, incertezas abertas.
Entre falas e fatos, a pergunta que ecoa — com certo tom de sarcasmo inevitável — é: nascer em Arapiraca ainda é uma escolha… ou já se tornou um risco logístico?
Há algo de profundamente humano — e quase sagrado — no ato de nascer na própria terra. Não se trata apenas de geografia, mas de identidade.
É no primeiro choro, ecoado entre rostos, sotaques e afetos familiares, que se inaugura um vínculo invisível: o pertencimento. Nascer onde a própria história começa a ser contada é, de certo modo, ser reconhecido antes mesmo de compreender o mundo.
Quando esse elo é rompido — quando o nascimento precisa acontecer longe, por ausência de condições mínimas — algo sutil, porém significativo, se perde. Não apenas para a mãe ou para a criança, mas para toda a comunidade, que deixa de acolher seus próprios começos. Uma sociedade que não assiste ao nascimento de seus filhos, pouco a pouco, se distancia de si mesma.
O pertencimento não é um luxo simbólico; é um alicerce emocional e social.
Émile Durkheim já advertia que “a coesão social depende da força dos laços que unem o indivíduo ao grupo”, e esses laços começam a ser tecidos desde o nascimento, quando o indivíduo é inserido, ainda que inconscientemente, em uma rede de significados e proteção.
Pierre Bourdieu, por sua vez, ao tratar do habitus, nos lembra que “as estruturas sociais se inscrevem nos corpos e nas disposições dos indivíduos” — e poucas experiências são tão fundantes quanto o lugar onde se nasce e é acolhido.
Quando a terra de origem deixa de ser o palco desse primeiro encontro com a vida, rompe-se também uma cadeia simbólica de continuidade.
Anthony Giddens destaca que “a identidade é construída na continuidade entre passado, presente e futuro”; sem esse elo inicial, fragiliza-se a narrativa de pertencimento que sustenta o indivíduo ao longo da vida.
Simone Weil, em sua sensibilidade filosófica, sintetiza essa dimensão ao afirmar que “ter raízes talvez seja a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana”. E essas raízes não são abstratas: elas começam no instante em que a comunidade acolhe o novo ser como parte de si.
Garantir que cada nascimento ocorra na própria terra é, portanto, mais do que uma questão de infraestrutura — é um compromisso com a dignidade, com a memória coletiva e com a construção de gerações mais seguras de si.
Pois uma sociedade que participa de seus próprios começos fortalece não apenas seus indivíduos, mas o sentido mais profundo de existir em comum.


