Após mais de 25 longos anos de negociações, muitas incertezas e eterna esperança de conclusão, foi assinado, em 17 de janeiro, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, em Assunção, no Paraguai.

Trata-se do maior acordo do gênero do mundo, criando um mercado de 780 milhões de consumidores com um PIB estimado em US$ 22 trilhões, representando aproximadamente 25% do PIB mundial.
Em brilhante artigo tratando o tema, o Procurador Federal Antônio de Freitas explica que, para além do macroeconômico, o tratado de livre comércio firmado entre o Mercosul e a União Europeia marca uma posição geopolítica entre os dois continentes, reafirmando a opção pelo multilateralismo e o livre-comércio diante do protecionismo americano e a polarização entre China e EUA.
“O tratado estabelece a redução de tarifas comerciais e a criação de facilidades para o investimento entre os blocos europeus e sul-americanos, de maneira imediata ou gradualmente, podendo tardar até 15 anos dependendo do setor”, destacou Antônio de Freitas, procurador federal na PGF/AGU; doutor em direito pela Universidade de Valencia (Espanha); e autor do Manual do Mercosul – globalização e integração regional”.
O desafio não é apenas vender mais, mas crescer melhor; não é apenas integrar-se ao mundo, mas fazê-lo com soberania inteligente.
O recente acordo entre União Europeia e Mercosul transcende a lógica meramente comercial: trata-se de uma encruzilhada histórica que interpela o Brasil em sua vocação econômica e em sua responsabilidade social.
Abrir mercados é também abrir horizontes — mas toda abertura exige maturidade institucional, visão estratégica e compromisso com a dignidade humana.
Sob o prisma econômico, o acordo amplia acesso a um dos maiores blocos consumidores do mundo, estimula investimentos, favorece cadeias produtivas e pressiona por maior competitividade e inovação.
Ao mesmo tempo, impõe desafios: adaptação regulatória, exigências ambientais rigorosas e necessidade de fortalecimento da indústria nacional.
A globalização, como advertia Anthony Giddens, é “a intensificação das relações sociais em escala mundial”; não há neutralidade nesse processo — há protagonismo ou marginalidade.
Socialmente, os impactos dependerão da capacidade brasileira de transformar crescimento em inclusão. Exportar mais não significa, automaticamente, distribuir melhor.
Amartya Sen lembra que “o desenvolvimento consiste na expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam”.
Se o acordo gerar emprego qualificado, capacitação técnica e sustentabilidade produtiva, será vetor de emancipação; se concentrar renda e fragilizar setores vulneráveis, ampliará desigualdades.
Há ainda a dimensão ambiental, central para a Europa e decisiva para o Brasil.
A preservação da Amazônia e o cumprimento de metas climáticas deixam de ser apenas compromissos éticos e tornam-se condições econômicas.
Ulrich Beck advertia que vivemos em uma “sociedade de risco”, na qual decisões econômicas produzem consequências globais. O Brasil, potência ambiental, pode converter responsabilidade ecológica em vantagem estratégica.
Assim, o acordo UE-Mercosul não é promessa automática de prosperidade, nem ameaça inevitável.
É oportunidade condicionada à lucidez política, ao planejamento estrutural e à valorização do capital humano.
O desafio não é apenas vender mais, mas crescer melhor; não é apenas integrar-se ao mundo, mas fazê-lo com soberania inteligente.
O Brasil tem diante de si a chance de afirmar-se como nação competitiva, sustentável e socialmente justa.
O futuro não será definido pelo texto do acordo, mas pela qualidade das escolhas que faremos a partir dele.


