O presidente da Unafisco Nacional, Kléber Cabral, foi intimado a depor à Polícia Federal (PF) nesta sexta-feira (20). O depoimento foi marcado por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na quarta (18), Cabral deu entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, e fez críticas à operação da PF contra auditores da Receita Federal por suspeita de vazamento de dados sigilosos de ministros do Supremo.
A operação também foi determinada por Moraes, como parte do inquérito das fake news, do qual ele é relator.
A afirmação do presidente da Unafisco, Kléber Cabral, ao dizer que “é mais fácil investigar o PCC do que certas autoridades, no caso, o STF”, não é apenas uma frase de impacto: é um sintoma existencial de um dilema estrutural entre poder, controle e transparência.
Quando investigar se torna mais difícil à medida que o investigado se aproxima do centro institucional, o problema deixa de ser jurídico e passa a ser moral.
Montesquieu advertia que “todo homem que tem poder é tentado a abusar dele; vai até onde encontra limites”.
O cerne da democracia não está na pureza dos seus atores, mas na eficácia dos seus freios.
Se o poder não pode ser escrutinado, ele deixa de ser poder republicano e se aproxima do privilégio. E privilégio é a antítese da igualdade perante a lei.
Hannah Arendt lembrava que “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”.
Essa ação conjunta pressupõe confiança.
Quando agentes públicos percebem barreiras assimétricas na aplicação da lei, a confiança institucional se fragiliza.
A opacidade alimenta suspeitas; a luz, ainda que desconfortável, restaura credibilidade.
A transparência não é um ataque às instituições; é a sua salvaguarda. Instituições fortes não temem investigação — elas a incorporam como mecanismo de legitimidade.
Já Norberto Bobbio afirmava que “a democracia é o governo do poder público em público”.
O que está em jogo, portanto, não é a honra desta ou daquela autoridade, mas o princípio de que nenhuma função, por mais elevada, deve estar imune ao escrutínio.
A opacidade alimenta suspeitas; a luz, ainda que desconfortável, restaura credibilidade.
Do ponto de vista existencial, a maturidade política de uma nação se mede pela coragem de confrontar suas próprias estruturas.
Investigar o crime organizado é necessário; investigar o poder institucional, quando há indícios, é indispensável.
O combate à ilegalidade não pode escolher alvos conforme a hierarquia simbólica.
Mais do que uma crítica pontual, a declaração provoca reflexão: queremos instituições veneradas ou instituições responsáveis? A verdadeira força do Estado não está na intocabilidade, mas na capacidade de se submeter às mesmas regras que impõe aos cidadãos. Onde há responsabilidade compartilhada, há legitimidade. Onde há transparência, há futuro.


