Na histórica Cartagena, onde delegações de mais de cem países se reuniram para discutir o futuro da terra e da produção rural, uma voz carregada de décadas de luta rompeu o silêncio tradicional das elites políticas: a da senadora Catalina Pérez Pérez. Aos 77 anos, é primeira líder camponesa a chegar ao Senado colombiano.

Ela participa da 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (ICARRD+20) destacando um marco simbólico — pela primeira vez, segundo ela, um encontro desse porte coloca o campesinato no centro do debate dentro do próprio território colombiano.
Às vésperas de tentar consolidar seu mandato nas urnas, a parlamentar prefere falar menos de eleições e mais de história, reforma agrária e do rumo político da Colômbia sob o governo de Gustavo Petro.
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A trajetória da senadora colombiana Catalina Pérez Pérez — uma mulher que chega ao Senado depois de décadas de luta camponesa — revela mais do que um fato político: expõe um dilema histórico que atravessa fronteiras e culturas.
Na América Latina, e particularmente no Brasil, a presença feminina em postos de liderança ainda é uma conquista que exige resistência cotidiana. Não por falta de capacidade, mas por um longo legado de estruturas sociais que, por séculos, reservaram o poder público e institucional quase exclusivamente aos homens.
O caso de Catalina simboliza uma ruptura silenciosa: a entrada de uma mulher de origem popular em um espaço tradicionalmente moldado por elites masculinas. No Brasil, o cenário não é muito diferente.
Apesar de as mulheres representarem mais da metade da população e do eleitorado, sua presença nos cargos eletivos permanece desproporcionalmente baixa. Nas grandes corporações e nas instituições públicas, o fenômeno se repete — poucas chegam ao topo da pirâmide decisória.
A filósofa francesa Simone de Beauvoir já advertia que “não se nasce mulher: torna-se”.
A frase, frequentemente citada, aponta para a dimensão cultural das barreiras impostas às mulheres. Não se trata apenas de talento ou mérito individual, mas de um conjunto de expectativas sociais que, ao longo do tempo, moldaram o que se espera — ou se permite — de uma liderança feminina.
Nas estruturas políticas brasileiras, essas barreiras assumem formas diversas: financiamento eleitoral desigual, redes de poder historicamente masculinas e, muitas vezes, a própria desconfiança social em relação à autoridade exercida por mulheres.
A cientista política Hanna Pitkin observava que “a representação política não é apenas ocupar um assento, mas ser reconhecido como voz legítima de um grupo”. Esse reconhecimento, para as mulheres, ainda é um processo em construção.
Nas corporações, a lógica é semelhante.
O chamado “teto de vidro” — expressão popularizada na sociologia organizacional — descreve a barreira invisível que impede muitas mulheres de alcançar os níveis mais altos de liderança.
O sociólogo Pierre Bourdieu analisou esse fenômeno ao afirmar que “a dominação masculina se perpetua não apenas pelas leis, mas pelos hábitos e pelas estruturas invisíveis da sociedade”. São mecanismos sutis, incorporados à cultura institucional, que reproduzem desigualdades mesmo quando as normas formais proclamam igualdade.
A história latino-americana mostra, porém, que rupturas começam muitas vezes nas margens. Mulheres camponesas, sindicalistas, professoras ou líderes comunitárias frequentemente iniciam movimentos de transformação que, com o tempo, alcançam as instituições.
A filósofa Hannah Arendt lembrava que “o poder nasce quando as pessoas agem juntas”. Nesse sentido, cada mulher que chega a um cargo de liderança não representa apenas uma vitória individual, mas um deslocamento simbólico dentro da estrutura social.
O exemplo de Catalina Pérez ecoa essa realidade.
Sua presença no Senado colombiano não elimina as desigualdades, mas evidencia que as fronteiras do poder não são imutáveis. No Brasil, a ascensão feminina à liderança política e corporativa segue um caminho semelhante: lento, por vezes conflituoso, mas historicamente irreversível.
No fundo, a questão não é apenas quantas mulheres ocupam o poder, mas que tipo de sociedade se constrói quando las finalmente conseguem chegar lá.
Porque, como escreveu Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, “as mulheres pertencem a todos os lugares onde as decisões estão sendo tomadas”.
Quando isso acontece, não se trata apenas de ampliar representações — trata-se de ampliar a própria ideia de democracia.


