Entre taças tilintando e conversas que misturam erudição e poder, Brasília ofereceu mais um daqueles encontros em que a política e o Judiciário parecem dançar no mesmo salão.

No último sábado (14), o aniversário do ministro aposentado do STF Luís Roberto Barroso reuniu figuras de peso em uma mesa que, por si só, já renderia manchetes.
Segundo o jornalista Felipe Recondo, estavam lado a lado o ministro do Supremo Alexandre de Moraes e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — nomes centrais em engrenagens sensíveis da República. Como se não bastasse, a mesa ainda contava com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do senador Rodrigo Pacheco, compondo um retrato quase completo das cúpulas de poder do país.
Registrado nas redes sociais de Felipe Recondo, autor de obras que destrincham os bastidores do STF, como a obra “Os Onze”, o encontro ganha contornos simbólicos: mais do que uma celebração, a cena sugere a proximidade — inevitável ou estratégica — entre instituições que, na teoria, orbitam em esferas distintas, mas que, na prática, frequentemente compartilham o mesmo espaço, seja ele institucional… ou festivo.
Quanto maior o poder, maior deve ser o zelo pela distância que garante sua legitimidade.
Há uma inquietação silenciosa que atravessa a consciência republicana quando as mesmas figuras que protagonizam decisões institucionais dividem, em ambientes informais, a intimidade da convivência social.
Não se trata de negar a humanidade dos agentes públicos — afinal, como lembrava Aristóteles, “o homem é, por natureza, um animal político” —, mas de reconhecer a tensão que emerge quando a proximidade pessoal parece tangenciar a necessária distância institucional.
O devido processo legal, em sua essência, exige mais do que o cumprimento formal de ritos: ele demanda uma aparência de imparcialidade que sustente a confiança coletiva.
Como ensinou Montesquieu, “tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo de principais, exercesse os três poderes”. Ainda que não haja fusão formal de funções, a percepção de confluência simbólica pode gerar fissuras na credibilidade pública.
Nesse cenário, a contradição se impõe: como conciliar a natural sociabilidade dos indivíduos com a exigência de impessoalidade absoluta?
A resposta talvez não esteja na negação dos encontros, mas na consciência de seus efeitos. Hannah Arendt advertia que “o poder só é efetivo enquanto a palavra e o ato não se divorciam”.
Quando a imagem pública sugere proximidade excessiva entre julgadores, investigadores e atores políticos, o risco não é apenas jurídico — é existencial para a própria ideia de justiça.
A República, nesse sentido, não se sustenta apenas por normas, mas por símbolos.
E símbolos importam.
Como bem sintetizou Rui Barbosa, “a pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.
Sua advertência não era um ataque, mas um chamado à responsabilidade: quanto maior o poder, maior deve ser o zelo pela distância que garante sua legitimidade.
Entre o humano e o institucional, reside, portanto, uma linha tênue — quase invisível, mas absolutamente essencial.
É nela que se equilibra a confiança social, esse pacto silencioso que permite ao cidadão acreditar que, apesar das mesas compartilhadas, a Justiça continuará a se sentar, solitária e equidistante, no tribunal da razão.


