A decisão da CPMI do INSS, que deveria lançar luz sobre suspeitas de fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas, acabou por projetar o foco sobre o epicentro do poder político nacional. Como diria a famosa gíria popular, “o pau cantou”!

Ao aprovar a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, no período de janeiro de 2022 a janeiro de 2026, a comissão desloca o debate técnico para o terreno simbólico: quando a investigação alcança familiares do presidente da República, a apuração deixa de ser apenas contábil e passa a testar os limites institucionais da República.
O requerimento 2939/2026, apresentado pelo relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), foi aprovado sob tensão crescente.
Lembremo-nos, por oportuno, que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado sob sigilo, em Janeiro, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, atendendo a um pedido da Polícia Federal (PF),
O que se seguiu foi um constrangedor empurra-empurra entre parlamentares e a interrupção da transmissão das imagens pela TV Senado; transformando a sessão em um retrato da polarização que marca o cenário político digno de corar até mesmo Simão Bacamarte.
Mais do que um ato processual, a deliberação tornou-se um capítulo emblemático da disputa narrativa em torno da CPMI, dividindo plenário, opinião pública e os próprios rumos da investigação.
Quando o espaço institucional — que deveria ser o templo da razão pública — se converte em arena de gritos e empurrões, o que se rompe não é apenas o decoro: é a confiança simbólica que sustenta a própria ideia de República.
A grandeza de uma instituição não se mede pela ausência de conflitos, mas pela capacidade de enfrentá-los com serenidade e responsabilidade.
A cena de autoridades trocando acusações sob tensão física e transmissão interrompida revela mais do que um episódio isolado; expõe uma crise de compostura que reverbera no imaginário coletivo como sinal de desorientação moral.
Aristóteles advertia, na Ética a Nicômaco, que a virtude está no justo meio, na moderação capaz de equilibrar paixões e razão.
Quando aqueles investidos de autoridade abandonam esse centro e cedem ao excesso, o que se comunica à sociedade é que o conflito vale mais do que o argumento.
A política, que deveria ser exercício de prudência (phronesis), transforma-se em espetáculo.
E o espetáculo, como lembrava Guy Debord, “tende a substituir a substância pela imagem”, criando uma percepção pública marcada mais pela emoção do confronto do que pela seriedade da investigação.
Hannah Arendt ensinou que o poder nasce da ação conjunta e do reconhecimento mútuo; ele se enfraquece quando a violência — física ou simbólica — ocupa o lugar do diálogo.
O empurra-empurra parlamentar, ainda que breve, carrega uma força imagética poderosa: sugere descontrole onde deveria haver domínio de si, ruído onde se esperava clareza.
Para a opinião pública, tais cenas alimentam o ceticismo e ampliam a descrença nas instituições, corroendo lentamente o pacto de confiança que sustenta a democracia.
Nietzsche observou que “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro”.
No calor das disputas políticas, a linha que separa a firmeza da agressividade pode se tornar tênue.
Quando ela é ultrapassada, o prejuízo não é apenas individual ou partidário — é civilizatório.
O imaginário coletivo passa a associar política a desordem, investigação a espetáculo, autoridade a descontrole.
Ainda assim, toda crise carrega um apelo ético: o de recuperar o equilíbrio.
A grandeza de uma instituição não se mede pela ausência de conflitos, mas pela capacidade de enfrentá-los com serenidade e responsabilidade.
Se a política é, em essência, a arte de viver juntos apesar das diferenças, então a compostura não é mero detalhe protocolar — é condição existencial para que a sociedade continue acreditando que o diálogo pode prevalecer sobre o caos.


