Segundo denúncia publicada no Portal Metropoles, o Ministério da Saúde incinerou mais de R$ 108,4 milhões em vacinas, medicamentos e insumos em 2025. Desse montante – o equivalente a R$ 18,5 milhões – continuavam dentro da data de validade.

Medicamentos e anticorpos monoclonais contra o câncer também acabaram incinerados apesar do prazo de validade em dia. Foi assim, por exemplo, com o blinatumomabe (R$ 141.929,07 a unidade), que trata a Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA); e com o brentuximabe vedotina (preço unitário de R$ 88.905,59), contra linfomas.
Tratamentos para doenças raras e vacinas contra a dengue, por exemplo, não ficaram de fora da lista” destacou a acurada reportagem.
O desperdício de recursos públicos na área da saúde não é apenas uma falha administrativa; é uma fratura ética.
A sociedade tem o dever de exigir transparência, planejamento eficiente e mecanismos rigorosos de controle. A boa governança não é luxo burocrático; é instrumento de justiça social.
Quando o Ministério da Saúde incinera mais de R$ 108,4 milhões em vacinas, medicamentos e insumos — sendo que 17,1% desse montante, o equivalente a R$ 18,5 milhões, ainda estava dentro do prazo de validade — não se queimam apenas produtos: consomem-se oportunidades de cuidado, prevenção e dignidade humana.
A saúde pública é expressão concreta do pacto social. Jean-Jacques Rousseau advertia que “o homem nasce livre, e por toda parte encontra-se acorrentado”.
No contexto contemporâneo, as correntes não são apenas políticas, mas estruturais: a má gestão aprisiona vidas à espera de tratamentos que poderiam ter sido ofertados.
Cada dose descartada representa uma consulta que não ocorreu, uma doença que poderia ter sido evitada, uma família que suportará custos físicos e emocionais evitáveis.
Sob a ótica ética, Immanuel Kant ensinou que o ser humano deve ser sempre tratado como fim, jamais como meio.
O desperdício de insumos essenciais viola esse imperativo moral ao submeter o cidadão à condição de estatística.
Quando recursos válidos são destruídos por falhas de planejamento, logística ou governança, a dignidade humana é relativizada em nome da ineficiência.
Já Hannah Arendt lembrava que “a essência dos direitos humanos é o direito a ter direitos”.
O acesso efetivo à saúde é um desses direitos fundamentais. Ao desperdiçar recursos ainda utilizáveis, enfraquece-se a confiança social nas instituições e amplia-se a desigualdade, pois quem depende exclusivamente do sistema público é quem mais sofre os efeitos dessa perda.
Contudo, a indignação não deve conduzir ao desalento, mas à responsabilidade coletiva.
A sociedade tem o dever de exigir transparência, planejamento eficiente e mecanismos rigorosos de controle. A boa governança não é luxo burocrático; é instrumento de justiça social.
Transformar desperdício em aprendizado institucional é possível.
Planejamento baseado em dados, logística integrada e fiscalização cidadã podem converter erros em reformas estruturais. A saúde pública, quando bem gerida, salva vidas; quando negligenciada, compromete o futuro.
Que esse episódio sirva não como símbolo de descrença, mas como ponto de inflexão.
A maturidade democrática exige vigilância, ética e compromisso com o bem comum. Afinal, onde há responsabilidade, há esperança — e onde há esperança organizada, há transformação.


