Crônica: Quando a Segurança é confundida com Arrogância

Há uma inversão cada vez mais frequente nas relações humanas: a firmeza passou a ser tratada como arrogância, a convicção como autoritarismo e a capacidade de sustentar uma posição como defeito de caráter.

Basta alguém não concordar para surgir o diagnóstico: “quer sempre ter razão”.

Mas ter razão e querer ter razão são coisas completamente diferentes.

O primeiro depende dos fatos, dos argumentos e da realidade.

O segundo pode nascer do orgulho.

Confundir os dois é uma maneira cômoda de fugir do debate, tentando diminuir ou, até mesmo, menosprezar os argumentos do outro.

Sócrates fez da dúvida uma ferramenta de conhecimento.

Reconhecer a possibilidade do erro é sinal de inteligência; abandonar uma convicção correta apenas para agradar aos outros é outra coisa.

Humildade não é submissão.

Há também uma estratégia recorrente nas discussões: quando não se consegue responder ao argumento, tenta-se desqualificar quem o apresenta.

Não se rebate a ideia. Rotula-se a pessoa.

“Arrogante.”

“Difícil.”

“Dono da verdade.”

E, assim, a discussão deixa de ser sobre o que foi dito e passa a ser sobre quem ousou dizê-lo.

É aí que começa o nivelamento por baixo.

Em vez de perguntar se o outro tem razão, pergunta-se por que ele se julga tão seguro.

Em vez de aprender com quem sabe mais, tenta-se diminuí-lo.

O conhecimento vira pedantismo; a disciplina, exibicionismo; a independência, arrogância.

Não se busca mais alcançar o alto. Busca-se derrubar quem chegou lá.

Esse comportamento revela menos sobre o acusado do que sobre o acusador.

Nietzsche advertiu que, ao combater monstros, devemos cuidar para não nos transformarmos também em monstros.

A advertência é atual: responder à arrogância com arrogância é apenas trocar os personagens da mesma mediocridade.

A verdadeira segurança não precisa humilhar.

Não precisa gritar.

Não precisa impor.

E, sobretudo, não precisa que o outro seja inferior para existir.

Quem possui convicção pode ouvir.

Quem possui inteligência pode reconsiderar.

Quem possui caráter pode admitir o erro.

Mas nenhuma dessas virtudes exige que uma pessoa renuncie ao próprio discernimento para preservar a autoestima de terceiros.

Epicteto já ensinava que não controlamos aquilo que os outros pensam ou dizem sobre nós. Controlamos, isto sim, a maneira como respondemos.

E talvez esteja aí a grande prova de maturidade: saber quando argumentar, quando reconhecer o erro e quando simplesmente não descer.

Porque não se nivelar por baixo não é colocar-se acima dos outros.

É recusar-se a ficar abaixo de si mesmo.

Em uma época em que a ofensa substitui o argumento e o rótulo substitui a reflexão, preservar a firmeza tornou-se quase um ato de resistência.

Ser educado não significa ser submisso.

Ser humilde não significa ser inseguro.

Ser firme não significa ser arrogante.

E discordar não é uma agressão.

No fim, a diferença é simples e definitiva: o arrogante precisa diminuir o outro para sentir-se grande; o homem verdadeiramente seguro não precisa diminuir ninguém.

Ele apenas permanece de pé.

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