Crônica: Quando a inocência aprende a desejar


Há algo de profundamente inquietante na trajetória humana: nascemos dependentes, frágeis e, em muitos aspectos, desprovidos de malícia.

A criança não chega ao mundo carregando ambições, ressentimentos ou estratégias para dominar o outro.

Ela chega pedindo o necessário, procurando um colo, reconhecendo no afeto materno a primeira forma de segurança.

No início, quase tudo parece simples.

A criança balbucia e se alegra com pouco.

Chora quando sente fome, sorri quando recebe carinho e encontra no abraço aquilo que o adulto, anos depois, talvez passe a procurar em dinheiro, poder, reconhecimento e prestígio.

Há, nessa fase, uma espécie de pureza que não precisa ser ensinada: ela simplesmente existe.

Mas o homem cresce.

E, à medida que aprende a nomear o mundo, também aprende a desejá-lo.

Primeiro pede o que necessita; depois, quer aquilo que vê.

Mais tarde, passa a querer aquilo que o outro possui.

E, finalmente, pode chegar ao ponto de desejar aquilo que nem sequer lhe pertence por direito.

É nesse momento que a vontade humana, originalmente capaz de florescer, começa a receber as primeiras águas contaminadas da corrupção.

Não se trata apenas da corrupção política, financeira ou institucional.

Existe uma corrupção muito mais silenciosa: aquela que acontece dentro da consciência.

É a pequena concessão que justificamos, a mentira que consideramos necessária, a vantagem que aceitamos porque “todos fazem”, o ressentimento que alimentamos até transformá-lo em ódio.

A corrupção começa, muitas vezes, muito antes do crime.

Começa quando o homem aprende a negociar seus princípios em troca de alguma conveniência.

A criança, enquanto ainda pronuncia suas primeiras palavras, costuma olhar para a mãe como referência de proteção e amor.

Há ali uma dependência que não diminui o indivíduo; ao contrário, oferece-lhe as primeiras bases para construir a própria humanidade.

Entretanto, quando cresce e se torna consciente da força dos próprios desejos, essa mesma relação pode ser atravessada pelo egoísmo, pela ingratidão e pelo ressentimento.

É uma das mais dolorosas contradições da existência: aquele que um dia recebeu tudo de alguém pode, posteriormente, desejar que esse alguém desapareça de sua vida.

Não necessariamente porque deixou de ser amado, mas porque o ego, quando se torna senhor da consciência, transforma até o afeto em obstáculo.

É assim que o branco pode tornar-se negro.

Não de uma vez, mas lentamente.

A inocência raramente desaparece em um único acontecimento.

Ela vai sendo negociada em pequenas parcelas.

Uma mentira aqui. Uma traição ali.

Uma ambição que ultrapassa os limites.

Uma injustiça aceita quando nos favorece. Um princípio abandonado porque mantê-lo seria inconveniente.

E cada concessão parece pequena demais para justificar arrependimento.

Até que um dia o homem percebe que já não reconhece a pessoa que se tornou.

Talvez seja por isso que a verdadeira educação não deva limitar-se à transmissão de conhecimento.

Ensinar alguém a ler, calcular, produzir e competir é importante; ensinar-lhe, porém, a distinguir o necessário do supérfluo, o desejo do direito, a liberdade da licença e a ambição da ganância é uma tarefa ainda mais elevada.

Aristóteles compreendia que a virtude não nasce pronta: ela é construída pelo hábito.

O homem torna-se justo praticando a justiça; torna-se temperante exercitando a temperança.

A mesma lógica funciona no sentido inverso.

Quem se acostuma a pequenas transgressões pode, pouco a pouco, tornar-se prisioneiro delas.

A vontade humana é, portanto, uma terra fértil.

Pode produzir generosidade ou egoísmo; justiça ou violência; amor ou indiferença.

Tudo dependerá das águas que receber.

E aqui está uma das grandes responsabilidades da sociedade: aquilo que corrompe o indivíduo também pode ser produzido coletivamente.

Uma sociedade que recompensa a esperteza em detrimento da honestidade, que confunde sucesso com riqueza, autoridade com poder e liberdade com ausência de limites acaba ensinando às novas gerações que princípios são obstáculos para quem deseja vencer.

Depois, surpreende-se quando os frutos são amargos.

Talvez o grande desafio da vida adulta seja justamente preservar alguma coisa daquela criança que fomos sem permanecer infantil.

Não recuperar a ingenuidade, mas conservar a capacidade de admirar, confiar, agradecer e reconhecer limites.

Crescer deveria significar ampliar a consciência, não diminuir a humanidade.

Porque a maturidade verdadeira não consiste em desejar mais, mas em saber o que merece ser desejado.

No fim, a pergunta talvez não seja por que a criança se transforma em adulto, mas o que fazemos, ao longo dessa transformação, com a inocência que recebemos.

A vontade pode florescer.

Mas, se for constantemente irrigada pela vaidade, pela ganância, pelo ressentimento e pela corrupção, produzirá frutos à altura das águas que a alimentaram.

E talvez a mais difícil forma de sabedoria seja esta: aprender, antes que seja tarde, a escolher melhor aquilo que deixamos entrar em nossa consciência.

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