
Por Ana Luísa Mendes
“Todo dia ela faz tudo sempre igual”.
Quando Chico Buarque cravou essa frase, ele resumiu a vida adulta.
A música “Cotidiano” tem um ritmo arrastado, quase hipnótico, que imita direitinho a batida do nosso próprio relógio. O despertador, o café quente, a correria, o beijo de hortelã, e a roda girando de novo.
Como eu respiro os bastidores do digital todo dia, vejo de perto como a internet força a barra para a gente odiar a própria rotina. O padrão das telas exige uma vida de eventos incríveis, estética de milhões e lançamentos épicos. Fazer o feijão com arroz virou quase um crime. A impressão que dá é cruel, se a sua vida não é um produto de alta conversão, você está fazendo tudo errado.
Mas, na prática, a coreografia da vida adulta passa longe desse glamour.
Para quem precisa bater ponto no regime CLT, equilibrar uma jornada paralela com uma renda extra, estudar e ainda gerenciar tudo isso em uma rotina de uma casa com filhos, o roteiro não tem nada de cinematográfico.
É engessado e previsível. Tem dias em que a sensação geral é de ser só mais uma engrenagem repetindo o mesmo movimento no sistema.
E é aí que a ficha cai para a genialidade do Chico Buarque.
Quando a gente para de brigar com a letra e só escuta, entende que é essa repetição exaustiva que constrói o nosso alicerce. A vida de verdade não se garante nos dias épicos de redes sociais, ela fica de pé justamente quando a gente engole o cansaço e faz o básico bem feito. Absolutamente tudo nasce dessa insistência diária.
Chico Buarque é, acima de tudo, o grande cronista da nossa resistência invisível.
Muito antes de a internet ditar que a vida precisava ser uma vitrine de dias extraordinários, ele já encontrava poesia no feijão com arroz. A genialidade do Chico não está em inventar mundos de fantasia, mas em colocar uma lupa e enxergar beleza na nossa rotina como ela é, o despertador, o café de sempre, o ponto batido e nos mostrar que é exatamente essa repetição diária, e muitas vezes exaustiva, que mantém a vida de pé.
O nosso dia a dia não precisa ser extraordinário para valer a pena. Existe uma beleza imensa e silenciosa no ato de simplesmente dar conta do recado, todo santo dia, sempre igual.
Ou não… por que afinal de contas nem todos os dias todos os pratinhos estão 100% equilibrados, e isso é a vida acontecendo na sua forma real.
Ana Luisa Mendes é estudante de Ciências Contábeis e atua nas áreas de marketing digital e e-commerce, dedicando-se a entender as engrenagens do comportamento e do consumo na era conectada.
Apaixonada por cruzar cultura e análise social, em “O Som das Ideias” ela investiga o impacto da música em nossas vidas, propondo uma escuta crítica e atenta aos movimentos do universo sonoro.
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