Segundo o petista, a tecnologia pode ampliar o espaço para “mentirosos” no debate público.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quinta-feira (14) o uso da inteligência artificial em campanhas eleitorais e alertou para os riscos da disseminação de desinformação e manipulação digital no processo democrático.
“Um cidadão que aprendeu a ter caráter com a Dona Lindu não aceitará IA para fazer campanha política. Vocês estão vendo na televisão: a verdade tarda, mas não falha. A mentira tem perna curta, ela pode causar prejuízo. Vocês viram o que fizeram comigo para não ser candidato em 2018.”
Durante a declaração, Lula elogiou a decisão do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, de impor restrições ao uso de conteúdos produzidos por IA durante o período eleitoral.
A Corte já aprovou regras que proíbem a divulgação e o impulsionamento de materiais manipulados nas horas que antecedem e sucedem a votação.
O avanço da inteligência artificial nas eleições reacende debates sobre liberdade de expressão, segurança informacional e os desafios das democracias diante das novas tecnologias digitais.
A democracia sempre dependeu da comunicação.
Discursos, panfletos, jornais, rádio, televisão e redes sociais moldaram, ao longo da história, a maneira como sociedades escolhem seus líderes e constroem percepções políticas.
A inteligência artificial surge agora como mais uma revolução nesse processo — talvez a mais sofisticada e perigosa de todas. Pela primeira vez, máquinas são capazes de produzir discursos, imagens, vídeos e emoções simuladas com grau de realismo suficiente para confundir milhões de pessoas em escala global e instantânea.
O cientista político Giovanni Sartori advertia que democracias modernas se tornam extremamente vulneráveis quando a emoção coletiva passa a prevalecer sobre a reflexão racional.
A IA potencializa justamente esse fenômeno, porque consegue produzir conteúdos personalizados, emocionalmente calibrados e direcionados a públicos específicos com precisão inédita.
O marqueteiro político Philip Kotler observava que campanhas eleitorais contemporâneas não disputam apenas votos, mas atenção, percepção e confiança.
A inteligência artificial transforma radicalmente esse cenário ao permitir criação automatizada de mensagens adaptadas ao perfil psicológico de cada eleitor. A política deixa de falar para massas homogêneas e passa a conversar individualmente com emoções, medos e desejos específicos de milhões de pessoas simultaneamente.
O cientista político Yuval Harari alerta que a IA inaugura uma nova disputa pelo controle da narrativa humana. Para ele, quem dominar algoritmos capazes de manipular emoções coletivas possuirá enorme poder político e social.
O problema é que democracias foram concebidas num período histórico em que informação falsa exigia esforço humano relativamente lento para ser produzida e disseminada. Hoje, algoritmos conseguem fabricar realidades artificiais em segundos.
Deepfakes, vozes sintéticas e imagens manipuladas representam talvez o aspecto mais inquietante dessa transformação.
O especialista em tecnologia Tristan Harris adverte que a sociedade caminha para uma era em que “ver” deixará de significar necessariamente “acreditar”.
Em contextos eleitorais, isso cria ambiente perigosamente instável, onde reputações podem ser destruídas, conflitos estimulados e opiniões manipuladas antes mesmo da possibilidade de verificação racional.
O cientista político Joseph Nye explica que o poder moderno depende crescentemente da capacidade de influenciar percepções públicas.
A IA torna-se instrumento poderoso de soft power digital, permitindo campanhas invisíveis de influência psicológica conduzidas tanto por governos quanto por grupos econômicos, movimentos ideológicos ou interesses estrangeiros.
Mas existe também uma dimensão paradoxal nesse fenômeno. A IA não é intrinsecamente maléfica.
O especialista em comunicação política Marshall McLuhan já afirmava que “o meio é a mensagem”: tecnologias ampliam capacidades humanas, mas também potencializam suas fragilidades.
A inteligência artificial pode fortalecer democracias ao ampliar acesso à informação, melhorar fiscalização pública e democratizar comunicação política. O risco surge quando ela passa a ser utilizada como instrumento sistemático de manipulação emocional.
O marqueteiro João Santana observava que campanhas eleitorais sempre trabalharam com percepção e emoção. Contudo, havia limites humanos para alcance e personalização dessas estratégias.
A IA rompe essa barreira. Pela primeira vez, campanhas podem testar automaticamente milhares de mensagens, identificar vulnerabilidades emocionais específicas do eleitorado e adaptar narrativas em tempo real.
O filósofo Jürgen Habermas defendia que democracias saudáveis dependem de debate público racional e minimamente transparente. A proliferação de conteúdos artificiais hiperpersuasivos ameaça justamente esse espaço comum de confiança social.
Quando cidadãos deixam de distinguir realidade de fabricação digital, a própria ideia de opinião pública começa a se fragilizar.
Existe ainda um problema psicológico silencioso.
O sociólogo Zygmunt Bauman observava que sociedades contemporâneas já vivem mergulhadas em excesso de informação, ansiedade e insegurança cognitiva. A IA amplia drasticamente esse ambiente, produzindo sensação permanente de dúvida sobre aquilo que é verdadeiro.
No fundo, a inteligência artificial aplicada às eleições representa mais do que avanço tecnológico. Ela revela uma crise mais profunda: a dificuldade humana de preservar discernimento ético e racional diante de ferramentas cada vez mais sofisticadas de influência emocional.
Porque eleições sempre foram disputas de narrativa.
Mas talvez nunca, em toda a história, a humanidade tenha possuído instrumentos tão poderosos para fabricar narrativas artificialmente convincentes em escala tão gigantesca.
E talvez o maior desafio das democracias contemporâneas não seja apenas regular a tecnologia, mas preservar algo muito mais raro e frágil: a capacidade humana de pensar criticamente em meio ao fascínio sedutor das ilusões digitais.


