
Na complexa trama da existência humana, distinguem-se, por vezes, duas categorias que a sociedade contemporânea observa com atenção e receio: as pessoas com problemas e as pessoas problemáticas.
Em face de uma liberdade cada vez mais difundida, influenciada e estimulada – muitas vezes confundida com libertinagem – deveria caber a cada um a responsabilidade por suas escolhas e seus atos….especialmente em tempos de “influencers de plantão e ocasião”!
Ao menos, deveria…
Essa liberdade radical implica que o sofrimento e as dificuldades não são apenas contingências externas, mas partes constitutivas da existência, que podem revelar-se na vida de quem enfrenta problemas.
Do ponto de vista psicológico, Carl Jung afirmava que “não podemos curar aquilo que não conseguimos reconhecer”, o que reforça a importância de acolher as dores internas como aspectos legítimos do ser.
A psicopatologia, segundo Viktor Frankl, não é mera doença, mas pode ser entendida como um “vazio existencial” que, quando ignorado, resulta em angústia profunda e, às vezes, em comportamentos desviantes.
Já para o psiquiatra R.D. Laing, o que a sociedade rotula como “problemático” muitas vezes é o reflexo de uma alienação em relação a sistemas sociais opressivos, onde “a loucura pode ser uma forma de sanidade em contextos insanos”.
Portanto, o indivíduo problemático pode ser um sintoma da própria estrutura social doente, um sinal de que algo está falhando no coletivo.
Sociologicamente, por outro lado, Émile Durkheim apontava que a desintegração social e a anomia geram fragmentação e crise de identidade, produzindo sujeitos que, isolados, tornam-se mais vulneráveis a conflitos internos e externos.
Ademais, as tradições religiosas, por sua vez, oferecem caminhos de ressignificação, como no ensinamento cristão de Santo Agostinho, que reconhece a “miséria do homem sem Deus” e propõe a transcendência como caminho de esperança e redenção.
Assim, na sociedade contemporânea, pessoas com problemas são, antes de tudo, seres humanos em busca de sentido e equilíbrio, enquanto pessoas problemáticas, em muitos casos, refletem o espelho quebrado de uma comunidade que precisa se reconstruir para ser mais justa, compreensiva e acolhedora.
Entre a dor e o conflito, habita a possibilidade de um novo entendimento da existência, onde o indivíduo e o coletivo se transformam (e se transformem) mutuamente.


