Não foi milagre administrativo. Nem sorte política. Foi método, prioridade e determinação coletiva.

Por Rui Guerra
Quando assumi a Presidência da CASAL, aos 34 anos – hoje tenho 80 – Maceió convivia com duas carências estruturais típicas de cidades que crescem sem planejamento de longo prazo: abastecimento de água insuficiente e inexistência quase absoluta de esgotamento sanitário tratado – uma precária estação de esgoto lançava dejetos na Praia do Sobral contaminando toda a orla de uma cidade turística.
A cidade crescia, a população aumentava, mas a infraestrutura permanecia atrasada.
O caminho mais fácil teria sido administrar a rotina. Manter pequenas obras, distribuir soluções emergenciais e sobreviver politicamente ao mandato. Mas isso não resolveria o problema estrutural. Era necessário escolher prioridades capazes de alterar o futuro da cidade.
A primeira decisão foi parar a empresa para ouvir seus próprios técnicos.
Em vez de impor soluções políticas, realizou-se um seminário interno para identificar quais obras realmente mudariam a realidade de Maceió. A resposta foi unânime. O Sistema PRATAGY resolveria o abastecimento de água. O Emissário Submarino iniciaria a solução do esgotamento sanitário.
Naquele instante surgia algo fundamental em qualquer grande transformação administrativa: consenso técnico em torno de objetivos claros.
Mas havia um problema ainda maior.
A CASAL estava inadimplente.
Sem crédito.
Sem capacidade de captar recursos.
Sem condições normais para realizar investimentos daquela magnitude.
Foi então que começou o verdadeiro trabalho de engenharia administrativa e financeira.
O passo seguinte foi procurar o governador. Ali apareceu a realidade típica de qualquer Estado brasileiro: escassez de recursos e excesso de prioridades concorrentes. Saúde, estradas, educação, folha salarial, segurança. Tudo disputava espaço no orçamento público.
Em vez de pedir recursos impossíveis, encaminhei uma indagação ao governador:
“Haveria autorização para buscar uma operação externa para captação de crédito?”
A autorização foi dada.
E isso mudou tudo.
Porque grandes obras públicas raramente nascem apenas da existência de dinheiro disponível. Elas nascem da capacidade de construir condições políticas, técnicas, financeiras e institucionais para tornar o investimento possível.
A partir daí começou uma sequência de ações coordenadas.
A Secretaria de Planejamento avaliou a capacidade de endividamento do Estado.
A diretoria financeira da CASAL mergulhou na realidade econômica da empresa.
As dívidas junto ao BNH foram renegociadas.
Os pagamentos começaram a ser regularizados.
A credibilidade institucional começou a ser reconstruída.
Esse talvez tenha sido o ponto mais importante de todo o processo: restaurar confiança.
Nenhum banco financia desorganização permanente. Nenhum investidor acredita em estruturas incapazes de honrar compromissos. Antes de captar recursos, foi necessário recuperar reputação financeira.
Somente depois disso surgiu a etapa seguinte.
Buscar financiamento internacional de um banco americano.
Naquele período, Delfim Netto estimulava entrada de dólares externos para equilibrar as contas internacionais do Brasil. Aproveitar aquela janela econômica exigia percepção de oportunidade. A operação foi estruturada com garantia do governo de Alagoas, criando viabilidade para os investimentos.
Enquanto isso, os editais de licitação foram autorizados e aprovados pelo BNH.
Os financiamentos avançavam.
A autorização legislativa foi defendida e aprovada na Assembleia Legislativa.
Assim as obras puderam sair do papel.
O resultado transformou Maceió.
O desabastecimento crônico praticamente desapareceu.
O esgotamento sanitário entrou definitivamente na agenda estrutural da cidade e Maceió se abasteceu de bons hotéis para atrair turistas.
Mas talvez o aspecto mais importante dessa experiência esteja em outro lugar.
As condições normais não existiam.
O dinheiro não estava disponível.
A empresa estava fragilizada.
O Estado tinha limitações.
Mesmo assim, as obras aconteceram.
Por quê?
Porque houve decisão consciente de não aceitar a fragilidade encontrada como destino inevitável.
Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre administrações que aceitam o destino como justificativa e outras que se julgam inconformadas com tal sentença. Algumas governam a realidade existente. Outras tentam alterar a realidade.
E isso só acontece quando uma instituição inteira passa a acreditar que o impossível administrativo pode ser reorganizado através de método, prioridade e mobilização coletiva.
A CASAL saiu de uma das piores posições nacionais em capacidade de captação de recursos para ocupar o quinto lugar no Brasil e viveu uma época de ouro até hoje relembrada por seus dedicados técnicos. Não por mágica financeira. Mas porque técnicos, dirigentes e servidores passaram a sentir que faziam parte de um projeto capaz de mudar a cidade.
No fundo, grandes obras públicas não nascem apenas de concreto, tubos ou estações elevatórias.
Nascem de uma decisão psicológica coletiva.
A decisão de não aceitar limites como sentença definitiva.
E talvez seja exatamente isso que explique como dois dos maiores investimentos estruturantes da história de Maceió foram realizados dentro de um único período de governo.
Sobre a Autor:
Rui Guerra é Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pós-graduado em Pavimentação Rodoviária/IPR e Elaboração e Análise de Projetos Econômicos/ Universidade de Brasília (UnB), com ampla experiência profissional nas áreas pública e privada.
Produtor da newsletter A Arquitetura dos Fatos.
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