Nesta segunda-feira, 4 de maio, a memória ressurge com a força silenciosa dos que se recusam a desaparecer por completo. Seis anos após a morte de Guilherme Palmeira, sua ausência ainda reverbera como presença incômoda — dessas que atravessam o tempo, desafiam o esquecimento e insistem em provocar reflexão.

Na coluna Caleidoscópio Existencial, o artigo desta semana, de autoria do colunista Rui Guerra, não se limita a recordar datas ou biografias: propõe um mergulho crítico na permanência simbólica de Guilherme Palmeira, explorando como a finitude de uma vida pode, paradoxalmente, ampliar o alcance de suas ideias, gestos e significados no tecido coletivo.
Entre memória e esquecimento, o que realmente morre — e o que, teimosamente, permanece?
Por Rui Guerra
O ano era 1988, e Maceió fervilhava em meio à campanha eleitoral.
Os dois principais campos políticos se organizavam em torno de nomes influentes: de um lado, Renan Calheiros, apoiado pelo então governador Fernando Collor de Mello; de outro, João Sampaio, com o respaldo dos senadores Guilherme Palmeira e Divaldo Suruagy. Permanecia uma incógnita o importante posicionamento do senador Teotônio Vilela Filho, que havia apoiado Collor para o governo.
Renan, com habilidade estratégica, fortaleceu sua chapa ao atrair Sabino Romariz — nome de grande densidade eleitoral na capital — como candidato a vice-prefeito. O movimento deu fôlego à campanha, e as primeiras pesquisas passaram a indicar ampla vantagem dessa chapa.
Diante desse cenário, intensificaram-se as pressões para que Guilherme Palmeira assumisse pessoalmente a candidatura à Prefeitura de Maceió. Para muitos aliados, João Sampaio não teria fôlego suficiente para conter o avanço adversário.
Guilherme resistia.
Tinha João Sampaio como aliado fiel e estava profundamente vinculado ao Senado, à política nacional e às relações institucionais que cultivara com discrição e respeito nos Três Poderes. Homem ético, solidário e estrategista, sabia que sua vocação era Brasília. Retornar à política municipal exigia mais do que cálculo — exigia uma inflexão.
Mas o ambiente político impunha outra lógica.
Crescia o entendimento de que sua ausência poderia comprometer, inclusive, sua reeleição ao Senado em 1990. Aos poucos, amadureceu a decisão: governar Maceió, ainda que por tempo limitado, poderia consolidar sua liderança política.
Faltando poucos dias para a convenção, executou um movimento silencioso e preciso. Articulou com aliados próximos — entre eles Divaldo Suruagy, João Sampaio, Theobaldo Barbosa e Benedito de Lira — e aceitou a candidatura, impondo uma condição estratégica: João Sampaio seria o vice.
Mais do que isso, deixou claro que governaria apenas até março de 1990, quando deixaria o cargo para disputar o Senado. Era um pacto entre responsabilidade municipal e continuidade de um projeto nacional.
Na manhã do último dia para convenções, Guilherme amanheceu candidato.
A estratégia e a surpresa viraram o jogo.
A base aliada se reorganizou. A oposição foi surpreendida. Guilherme, que sequer figurava como candidato nas primeiras pesquisas, passou à liderança. Mas Renan, talentoso, reagiu com intensidade e reduziu a diferença, mas a reversão já estava em curso.
Há 60 dias da eleição uma pesquisa nos informava a ultrapassagem de Renan que tinha na periferia sua fonte da virada. Comuniquei imediatamente a Guilherme que tomou um enorme choque mas reagiu e aconselhou não divulgar, detalhar as causas e levar-lhe uma proposta para enfrentar.
Após análises e muita discussão interna encontramos as causas e sugerimos mudar o foco da campanha para direciona-la totalmente para a periferia onde estavam as classes de renda C e D no que foi aprovado pelo candidato. Na mesma noite ligou para Sarney, presidente da república e pediu uma audiência.
Liguei para Luiz Otávio e pedi um encontro com João Lyra – suplente de Guilherme – que foi rápido na adesão e associou-se ao esforço de campanha. Viajamos a Brasília com Nono – que tinha Antônio Alves na representação federal da LBA – Legião Brasileira de Assistência de onde trouxemos o apoio – fazer os 60 dias finais de campanha na periferia levando soluções para atender, via LBA, todas as demandas que fossem apresentadas.
O esforço deu resultado e a virada na periferia trouxe a vitória — apertada, é bem verdade, pouco mais de 6% — suficiente para alterar o desfecho da campanha.
Encerrado o pleito, retornamos a Brasília.
Guilherme foi direto. Recomendou desvincular-me dos vínculos institucionais no planalto e dedicar-me a conceber um plano de governo com 15 meses de duração.
Fez algumas recomendações entre elas a contenção total nas despesas de custeio do município tipo inexistência de uso de carro oficial, não adquirir veículos – locar onde não pudesse evitar.
Cobrar os impostos com rigor sabendo que ele, o prefeito, não liberaria nem pedido de sua mãe — um sinal claro de austeridade que deveria ser passada a quem quer que mostrasse interesse em participar da administração. Os aliados foram fundamentais no apoio à nova gestão não dificultando o duro receituário que foi exigido para recuperar as finanças municipais.
Assumi a coordenação da transição e, posteriormente, depois da posse, a Secretaria de Economia, integrando Finanças, Planejamento e Informática para dar velocidade e efetividade nas decisões. Fundimos todas as ações de infraestrutura na COMURB e colocamos o Marcus Vieira na Secretaria de Obras como formulador do programa com Sócrates Calheiros como garantia de execução.
A realidade encontrada era crítica: malha viária destruída e cinco folhas salariais em atraso, escolas e postos de saúde sem funcionar. Não existia sequer o Gabinete do Prefeito nem a Secretaria de Finanças – literalmente destruídos, sem móveis, sem informática, sem energia, sem gestão alguma.
A resposta foi rigorosa, técnica e imediata. Recuperamos o Centro de Informática da Prefeitura, revisamos o cadastro imobiliário e de serviços para cobrança de tributos, atualizando a base tributária, auditamos e elegemos os passivos pagáveis.
Estabelecemos uma lógica racional de cobrança: débitos cujo custo de recuperação fosse superior ao valor devido seriam legalmente cancelados. Instituímos prêmios no sucesso da cobrança de tributos e logo reestruturamos a arrecadação municipal.
Com esse novo desenho fiscal, convocamos as construtoras com contratos pendentes, reduzimos os preços unitários incompatíveis, renegociamos compromissos e priorizamos aquelas empresas dispostas a iniciar imediatamente a recuperação das vias públicas.
No primeiro dia útil da nova gestão, já havia obras em cinco frentes da cidade.
Seguimos para Brasília.
Numa reunião com o presidente do Banco do Brasil, o alagoano Mário Berard, estruturamos um empréstimo-ponte lastreado na nova projeção de arrecadação municipal. A operação foi bem-sucedida: em doze meses, o município arrecadou o equivalente a dois anos, revertendo a paralisia herdada.
Com a gestão de Guilherme Palmeira foi interrompida a oscilação fiscal da Prefeitura de Maceió cuja estabilidade mantém-se viva até os dias atuais.
Com os recursos obtidos no seu austero ano de governo e a nova engenharia financeira na arrecadação e orçamento municipal adotados toda a agenda foi cumprida: vias recuperadas, fornecedores pagos, salários quitados, pagamento de empréstimos regularizados, educação e saúde normalizados e ainda saldo suficiente para garantir a normalidade administrativa.
Em 1º de abril de 1990, conforme pactuado, Guilherme transmitiu o cargo a João Sampaio e iniciou sua campanha vitoriosa ao Senado Federal.
Não surgiram adversários com densidade suficiente para enfrentá-lo. A campanha foi leve, baseada em resultados e coerência. A vitória veio com ampla maioria.
A lição permanece atual.
A política pode sim ser sensata, eficaz e comprometida com a realidade e o interesse público — desde que seja conduzida por quem entende que poder não é permanência, mas exemplo e responsabilidade; não é discurso, mas entrega; não é ambição, mas palavra cumprida.
O Sol voltou a brilhar e Maceió voltou a sorrir.
Sobre a Autor:
Rui Guerra é Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pós-graduado em Pavimentação Rodoviária/IPR e Elaboração e Análise de Projetos Econômicos/ Universidade de Brasília (UnB), com ampla experiência profissional nas áreas pública e privada.
Produtor da newsletter A Arquitetura dos Fatos.
*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus Autores e não representam, necessariamente, a linha editorial ou a visão do O Magistral. O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Todos os direitos reservados.


