O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu, pelo segundo ano consecutivo, não participar de atos públicos no Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira (1º de maio).

Em vez disso, optou por um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, exibido na noite de quinta-feira (30). A estratégia busca evitar a exposição após a baixa adesão registrada no evento de 2024, em São Paulo.
Na mensagem, Lula concentrou-se em pautas econômicas, com destaque para o lançamento do programa Desenrola 2.0. A nova fase da iniciativa prevê juros reduzidos, limitados a 1,99%, além de descontos de até 30% sobre o valor das dívidas.
O governo também anunciou condições facilitadas de pagamento e a possibilidade de utilização de até 20% do saldo do FGTS para quitação dos débitos, ampliando o alcance da política de renegociação.
A presença do governante entre os trabalhadores, sobretudo em datas simbólicas, não é mero gesto protocolar — é, antes, um ato de reconhecimento político que tangencia o campo do simbólico e do existencial.
O poder, quando encarnado na figura do líder, precisa ser visto, ouvido e, de certo modo, tocado pela realidade concreta daqueles que o legitimam.
Como adverte Hannah Arendt, “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”; quando essa ação se distancia do convívio real, resta apenas a aparência — e, com ela, o risco da erosão silenciosa da legitimidade.
Cientistas políticos frequentemente alertam para esse fenômeno. Pierre Rosanvallon argumenta que a democracia contemporânea não se sustenta apenas por mecanismos institucionais, mas também por uma “presença sensível” do governante, capaz de gerar confiança e identificação.
Já Bernard Manin observa que, nas democracias de audiência, a visibilidade do líder não é acessória, mas estrutural: ela constrói — ou desconstrói — o vínculo entre প্representantes e representados.
Ausentar-se, portanto, não é neutralidade; é uma escolha que comunica.
No imaginário coletivo, o afastamento deliberado tende a ser interpretado como desinteresse, cálculo ou mesmo temor.
A praça vazia fala tanto quanto a praça cheia — e, às vezes, mais. Ao evitar o contato direto, o poder pode preservar-se no curto prazo, mas arrisca, no longo curso, alimentar uma narrativa de distanciamento que fragiliza sua autoridade moral.
Como sustenta Norberto Bobbio, a força das democracias reside não apenas nas regras, mas na confiança pública que as sustenta; confiança essa que se nutre de gestos concretos e presença efetiva.
No fundo, a ausência reiterada não é apenas um vazio físico — é um silêncio que reverbera.
E, em política, silêncios raramente são neutros: eles insinuam, provocam e, por vezes, corroem aquilo que o discurso oficial insiste em afirmar.


