Perfis falsos criados com inteligência artificial estão explorando a vulnerabilidade e o apelo emocional para lucrar na internet.

Vídeos que simulam mulheres com deficiência — chorando, relatando solidão ou questionando suas chances de amor — seguem um roteiro calculado para gerar empatia e engajamento.
Por trás da narrativa sensível, porém, há um esquema que combina manipulação emocional e venda de conteúdos adultos.
As personagens são inteiramente digitais, variando entre mulheres amputadas, cadeirantes, com vitiligo ou nanismo — chegando, em alguns casos, a representações hiper-realistas de gêmeas siamesas.
Nos comentários, a reação do público oscila entre afeto e objetificação, revelando como a fronteira entre compaixão e consumo pode ser facilmente instrumentalizada no ambiente virtual.
Há algo de profundamente perturbador quando a dignidade humana deixa de ser um limite e passa a ser apenas mais um recurso explorável.
A fabricação de identidades vulneráveis — ainda que artificiais — para extrair lucro revela não apenas um desvio tecnológico, mas uma falência moral mais ampla: a transformação da dor em mercadoria e da empatia em moeda de troca.
Nesse cenário, o crime não se resume ao golpe financeiro; ele se expande para o campo simbólico, onde a própria ideia de humanidade é instrumentalizada.
O psiquiatra Viktor Frankl já advertia que, quando o sentido é substituído pelo interesse, o ser humano corre o risco de se desumanizar, tornando-se meio e não fim.
Da mesma forma, a psicóloga Shoshana Zuboff, ao analisar o capitalismo de vigilância, afirma que a experiência humana tem sido “reivindicada como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas”.
Aqui, porém, a distorção é ainda mais aguda: não se trata apenas de capturar dados, mas de fabricar sofrimento para capturar atenção — e, com ela, lucro.
Do ponto de vista ético, tal prática rompe com o princípio básico de respeito à dignidade, transformando condições reais de vulnerabilidade em instrumentos de manipulação.
No plano criminal, aponta para novas formas de fraude e exploração que desafiam legislações ainda despreparadas para lidar com identidades sintéticas.
Já no âmbito existencial, expõe um paradoxo incômodo: em uma sociedade obcecada por status e validação, até mesmo a compaixão pode ser simulada, roteirizada e vendida.
Como advertiria o psiquiatra Rollo May, “o oposto da coragem não é a covardia, mas a conformidade”.
E talvez seja justamente essa conformidade silenciosa — que consome, comenta e compartilha sem questionar — que sustenta um sistema onde a dignidade deixa de ser um valor inegociável e passa a ser apenas mais um ativo no mercado das aparências.


