Uma engrenagem política sob suspeita passa a operar agora também nos autos da Justiça.

O Ministério Público de Alagoas (MPAL) denunciou 16 pessoas por suposta participação em uma organização criminosa que teria atuado no interior da Câmara Municipal de Maceió, tendo como figura central o vereador Siderlane Mendonça.
Segundo a acusação, o grupo estaria envolvido em práticas como “rachadinha”, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral e uso indevido de recursos de campanha.
A denúncia, já aceita pela Justiça Eleitoral, transforma os investigados em réus e descreve um esquema que, conforme o MPAL, funcionava de maneira estruturada, contínua e hierarquizada entre 2018 e 2025, com utilização de cargos comissionados para desvio de salários e financiamento de despesas privadas e eleitorais.
Saiba como funcionava esquema de R$ 2,8 mi liderado por vereador em Maceió
No curso das investigações, o parlamentar chegou a ser afastado do cargo em abril de 2025, por decisão judicial que também determinou o bloqueio de bens superiores a R$ 200 mil.
Meses depois, em 28 de julho, uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) autorizou seu retorno ao mandato.
A íntegra da denúncia, obtida pelo portal CadaMinuto, detalha não apenas o papel atribuído ao vereador, mas também a atuação dos demais acusados no suposto esquema.
Uma sociedade não se constrói apenas por leis, mas por referências.
Quando escasseiam exemplos de conduta íntegra, instala-se uma espécie de erosão silenciosa no imaginário coletivo: o certo deixa de ser horizonte e passa a ser exceção tolerada. Educar, nesse contexto, torna-se tarefa mais árdua, pois o discurso já não encontra respaldo na prática.
Paulo Freire costumava afirmar que “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.
Mas o que ocorre quando essas pessoas crescem cercadas por modelos que naturalizam o desvio, a vantagem indevida, o cinismo como estratégia?
A pedagogia implícita do cotidiano — aquela que se aprende sem sala de aula — passa a ensinar que princípios são negociáveis e que a ética é apenas retórica ornamental.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, observou que grandes desvios morais não nascem, necessariamente, de monstros, mas da ausência de pensamento crítico e de referências sólidas.
Quando a conduta exemplar se torna rara, o indivíduo tende a ajustar-se ao padrão dominante, não por convicção, mas por conformidade.
E assim, pouco a pouco, o extraordinário da integridade vai sendo substituído pelo ordinário da conveniência.
Durkheim já alertava que a coesão social depende de normas compartilhadas e respeitadas.
Sem elas — ou sem quem as encarne — a sociedade mergulha em um estado de anomia, onde os limites se dissolvem e o pertencimento enfraquece.
Não se trata apenas de moralismo, mas de sobrevivência cultural: povos que perdem seus referenciais éticos perdem, também, a capacidade de projetar futuro.
Exemplos positivos não são ornamentos de uma civilização; são sua argamassa invisível. Sem eles, a cultura se fragmenta, a confiança se esvai e o pacto social se torna mera formalidade.
E então resta a pergunta incômoda: que tipo de mundo se constrói quando ninguém mais parece digno de ser seguido?


