A abertura do 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), realizada na noite desta sexta-feira (24), em Brasília, foi marcada por um gesto que extrapolou as fronteiras do debate interno.

Em um palco dedicado ao tema da “solidariedade internacional pela paz”, um banner com a imagem de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, exibiu a frase “Los Queremos de Vuelta”, em referência à prisão do casal nos Estados Unidos desde janeiro.
“Eu lamento não estar presente. Li uma proposta de documento, acho que está bom de conteúdo. Mas acho que é importante a gente levar com seriedade e prometer coisas que temos a possibilidade de fazer. Porque quem está no governo tem como grande arma para ganhar as eleições mostrar o que fez“, afirmou o presidente Lula, ausente ao evento.
A manifestação, organizada pela secretaria de relações internacionais do partido, adiciona um componente diplomático e ideológico ao evento, evidenciando como pautas externas seguem atravessando o cenário político nacional.
A política, quando reduzida a gestos simbólicos ou a slogans de ocasião, perde sua densidade e se aproxima perigosamente do teatro. É no terreno mais árido — e menos sedutor — dos debates consistentes e dos programas de governo bem delineados que a democracia encontra sua substância.
Ali, ideias são testadas, contradições emergem e promessas deixam de ser abstrações para se tornarem compromissos verificáveis.
O cientista político Robert Dahl advertia que uma democracia funcional exige não apenas participação, mas também contestação informada — isto é, a capacidade de submeter propostas ao crivo público de forma transparente e racional.
Sem esse processo, o poder tende a se descolar da responsabilidade, convertendo-se em mera administração de interesses difusos.
Já Giovanni Sartori insistia que partidos políticos não são meras máquinas eleitorais, mas estruturas programáticas que organizam o pensamento político e oferecem ao eleitor uma escolha inteligível.
Quando esses programas se esvaziam, o voto se torna um ato quase intuitivo, mais próximo da adesão emocional do que de uma decisão consciente.
Debates públicos, por sua vez, não são simples confrontos retóricos; são arenas onde a linguagem deve prestar contas à realidade.
Jürgen Habermas, ao refletir sobre a esfera pública, defendia que a legitimidade do poder nasce do diálogo orientado pelo melhor argumento, não pelo mais conveniente.
Nesse sentido, a boa governança institucional depende de um ecossistema em que ideias possam ser confrontadas sem medo, onde divergências não sejam silenciadas, mas lapidadas. Sem programas claros, governos navegam ao sabor das circunstâncias; sem debates qualificados, a sociedade perde a capacidade de discernir entre o possível e o ilusório.
E, nesse vácuo, a política deixa de ser um instrumento de construção coletiva para se tornar apenas um jogo de permanência no poder — eficiente, talvez, mas profundamente desprovido de sentido.


