A Noruega decidiu confrontar o poder silencioso dos algoritmos sobre a infância.

O governo anunciou nesta sexta-feira (24/4) um projeto de lei que pretende proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, com previsão de entrada em vigor em 2027.
A proposta, que ainda será submetida ao Parlamento até o fim do ano, reflete uma crescente preocupação global com os impactos digitais no desenvolvimento infantil.
Ao justificar a medida, o primeiro-ministro Jonas Gahr Store afirmou que a iniciativa busca preservar uma infância menos mediada por telas e mais ancorada em experiências reais.
Segundo ele, brincadeiras, relações e rotinas não devem ser moldadas por algoritmos — uma crítica direta à lógica das plataformas que disputam, cada vez mais cedo, a atenção das crianças.
Entre o deslizar de telas e o silenciar dos livros, forma-se uma geração cuja inteligência não apenas aprende — reage.
As redes sociais, ao mesmo tempo em que democratizam o acesso ao conhecimento, também o fragmentam, diluem e, por vezes, o banalizam. O que deveria ser ferramenta transforma-se em ambiente; e o ambiente, quando não mediado, passa a educar por conta própria — sem ética, sem intenção formativa, sem responsabilidade.
Paulo Freire já advertia que “educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.
A questão que se impõe é: que tipo de pessoa está sendo moldada quando o aprendizado se submete à lógica da velocidade, da validação instantânea e da superficialidade?
A formação intelectual exige tempo, silêncio e contradição — três elementos pouco compatíveis com a arquitetura das redes, desenhadas para capturar atenção, não para aprofundar consciência.
Neil Postman, crítico da cultura midiática, observou que “cada tecnologia traz consigo uma filosofia”.
No caso das redes sociais, essa filosofia parece sustentar-se na urgência, na simplificação e na recompensa imediata.
Crianças e jovens, ainda em processo de construção cognitiva e emocional, tornam-se não apenas usuários, mas produtos de um sistema que privilegia o impacto sobre a reflexão.
Contudo, rejeitar as redes de forma absoluta seria um gesto tão ingênuo quanto aceitá-las sem crítica. Como pondera Edgar Morin, “é preciso ensinar a navegar em um oceano de incertezas por meio de arquipélagos de certeza”.
Cabe à educação — formal e familiar — não apenas limitar o uso, mas formar o discernimento. Ensinar a pensar continua sendo o antídoto mais eficaz contra qualquer algoritmo.
No fim, o dilema não reside nas redes em si, mas na ausência de mediação consciente.
Onde falta orientação, sobra influência. E onde o pensamento não é cultivado, qualquer estímulo — por mais raso que seja — ganha a aparência de verdade.


