A troca de farpas entre o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes expôs, nesta quinta-feira (23), mais do que um desacordo político: revelou um embate simbólico sobre linguagem, representação e poder.

Em entrevista, o decano do STF ironizou o modo de falar de Zema, afirmando “não entender” o político e comparando sua fala a um “dialeto próximo do português”. A declaração veio no contexto de uma notícia-crime que envolve o pré-candidato.
No que diz respeito às eventuais pressões contra o STF, o ministro foi enfático:
“Eu já disse, em outras oportunidades, que ideias de fora para dentro normalmente não são bem recebidas. Quem imagina isso, que vai fazer pacto com este ou aquele — academia, vai lá na FGV, vai lá no Instituto FHC e tal — e vai pressionar o tribunal, não conhece o tribunal”, destacou Gilmar Mendes.
Zema, por sua vez, reagiu prontamente nas redes sociais.
Ao criticar o que chamou de “português esnobe de Brasília”, afirmou representar o modo de expressão de “brasileiros simples”, transformando a crítica linguística em argumento político.
“Sabe quem não entende o que eu falo? O ministro Gilmar Mendes. Porque o linguajar de brasileiros simples como eu é diferente do português esnobe dos intocáveis de Brasília”, reagiu Zema.
O episódio tensiona, mais uma vez, as fronteiras entre forma e conteúdo no debate público, onde a linguagem deixa de ser mero instrumento e passa a operar como marcador de identidade — e, não raro, de divisão.
A linguagem pode seduzir, ornamentar, até enganar — mas é o agir que, no fim, sentencia.
A história humana é pródiga em oradores brilhantes que fracassaram diante da própria prática, assim como em vozes simples cuja autoridade se impôs pela coerência silenciosa dos atos.
Afinal, como advertiu Confúcio, “o homem superior é modesto no falar, mas excede no agir”.
A credibilidade, nesse sentido, não nasce da eloquência, mas da convergência entre palavra e conduta.
Hannah Arendt observou que a ação é o espaço onde o ser humano se revela ao mundo, indo além das intenções e dos discursos.
Falar é prometer; agir é cumprir — ou trair.
Quando há dissonância entre esses dois planos, instala-se uma fissura ética que corrói a confiança, esse capital invisível que sustenta tanto relações pessoais quanto instituições.
Já Aristóteles, ao tratar da ethos, indicava que o caráter — demonstrado na prática — é o fundamento mais sólido da persuasão. Não basta parecer digno: é preciso ser.
Nietzsche, com sua habitual acidez, desconfiava das palavras como máscaras: “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”.
Ele insinuava que o discurso pode se tornar abrigo confortável para quem evita o risco da ação. Por isso, a coerência não é apenas uma virtude moral, mas um teste existencial: ela exige que o indivíduo sustente, no mundo concreto, aquilo que proclama no plano das ideias.
No fim, pouco importa se o discurso é refinado ou rude, erudito ou popular, lapidado ou espontâneo.
A autoridade verdadeira não reside na forma da fala, nem no idioma que a carrega, mas na integridade que a sustenta.
Como sintetizou Mahatma Gandhi, em uma máxima quase austera: “a felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia”.
Fora disso, resta apenas ruído — por mais sofisticado que soe.


