O Rio de Janeiro entrou na rota de uma das maiores demonstrações de poder naval em curso no Atlântico Sul.

A Marinha dos Estados Unidos anunciou a chegada da Operação Southern Seas 2026, liderada pelo porta-aviões nuclear USS Nimitz (CVN 68), o mais antigo ainda em atividade no mundo, acompanhado do destróier USS Gridley (DDG 101).
A missão prevê exercícios conjuntos com forças navais de dez países da região e inclui escalas no Brasil, Chile, Panamá e Jamaica — embora os detalhes da passagem pela capital fluminense ainda estejam em definição.
Em comunicado ao O GLOBO, o contra-almirante Carlos Sardiello destacou que a operação simboliza o compromisso norte-americano com o fortalecimento de parcerias marítimas e a cooperação diante de ameaças comuns.
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No tabuleiro instável da geopolítica, exercícios militares conjuntos não são meros ensaios de guerra, mas encenações calculadas de confiança, poder e dissuasão.
Ali, entre navios alinhados e protocolos compartilhados, as nações não apenas treinam combates possíveis — ensaiam, sobretudo, a difícil coreografia da convivência estratégica.
Como advertia Carl von Clausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios; poder-se-ia acrescentar que os exercícios militares são a continuação da política por meios ainda reversíveis, onde o gesto antecede o conflito e, por vezes, o evita.
Essas operações revelam uma ambiguidade fundamental: são, simultaneamente, instrumentos de cooperação e sinais de força.
O cientista político Joseph Nye argumenta que o poder no mundo contemporâneo se manifesta tanto pela coerção quanto pela atração; nesse sentido, exercícios conjuntos funcionam como uma síntese dessas dimensões, projetando capacidade militar enquanto constroem vínculos de confiança e interoperabilidade.
Já Samuel Huntington, ao analisar os choques e alinhamentos civilizacionais, sugere que alianças militares tendem a seguir afinidades culturais e interesses estratégicos — e é justamente nesses exercícios que tais afinidades são testadas, reafirmadas ou, silenciosamente, tensionadas.
Mas há também uma dimensão existencial nesse teatro naval e aéreo.
Ao treinarem juntos, antigos rivais podem suspender, ainda que provisoriamente, a lógica do antagonismo absoluto, reconhecendo no outro não apenas um potencial inimigo, mas um parceiro contingente diante de ameaças difusas — do terrorismo às disputas por recursos.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao refletir sobre a modernidade líquida, observou que vivemos em um mundo marcado por incertezas e medos difusos; nesse cenário, a cooperação militar internacional emerge como uma tentativa de dar forma e previsibilidade ao caos.
No entanto, essa mesma prática carrega um paradoxo inquietante: ao preparar-se incessantemente para a guerra, a humanidade flerta com a sua própria perpetuação.
Michel Foucault já insinuava que o poder moderno se organiza não apenas para proteger, mas para administrar riscos e controlar possibilidades.
Exercícios militares conjuntos, nesse prisma, são menos sobre guerras específicas e mais sobre a manutenção de uma ordem global onde a ameaça nunca desaparece — apenas se transforma.
Assim, entre manobras coreografadas e discursos diplomáticos, esses exercícios revelam algo mais profundo: a tentativa humana de equilibrar medo e cooperação, força e diálogo, num mundo onde a paz, paradoxalmente, continua sendo treinada como se fosse guerra.


