A promessa de frear o avanço de uma das doenças mais devastadoras do envelhecimento começa a ganhar forma no Brasil.

Aprovado pela Anvisa em dezembro, o lecanemabe, medicamento biológico voltado ao tratamento do Alzheimer, deve chegar ao mercado nacional em junho, inaugurando uma nova frente terapêutica baseada na atuação direta sobre as protofibrilas de beta-amiloide — estruturas tóxicas associadas à progressão da doença.
O avanço científico, no entanto, chega acompanhado de um obstáculo conhecido: o custo.
Com preço mensal estimado em R$ 8.108,94, que pode ultrapassar R$ 11 mil após impostos, o tratamento expõe o dilema entre inovação médica e acesso desigual, reacendendo o debate sobre quem, de fato, poderá se beneficiar das novas tecnologias na saúde.
A medicina contemporânea avança com a precisão de quem aprendeu a decifrar os códigos mais íntimos da vida, mas tropeça — não raro — naquilo que é mais rudimentar: o acesso.
Entre a descoberta e o paciente, ergue-se um abismo tarifado. O que poderia representar alívio transforma-se, para muitos, em contemplação distante. A cura existe, mas não circula.
O médico e pesquisador Eric Topol costuma afirmar que “nunca tivemos ferramentas tão poderosas para tratar doenças, mas o desafio agora é democratizá-las”. A frase não celebra — alerta. Ela sugere que o verdadeiro limite da medicina deixou de ser biológico e passou a ser econômico. O conhecimento avança, mas sua distribuição permanece seletiva.
Sob a lente da economia, o Nobel Joseph Stiglitz argumenta que mercados desregulados na área da saúde tendem a produzir “ineficiência moral”, na qual o preço não reflete apenas o custo, mas a capacidade de pagar.
Em outras palavras, não se trata apenas de quanto vale um medicamento, mas de quem pode arcar com ele. A lógica mercantil, quando aplicada à sobrevivência, revela um paradoxo incômodo: a vida tem preço, mas não deveria ter dono.
O oncologista Siddhartha Mukherjee, ao refletir sobre a história do câncer, escreveu que “cada avanço médico carrega em si a promessa de redenção — e o risco de exclusão”.
A medicina, assim, oscila entre dois polos: salvar e selecionar. E nesse intervalo, silencioso e cruel, instala-se a angústia de milhões que assistem ao progresso como quem observa uma porta entreaberta — visível, mas inacessível.
No fim, a questão deixa de ser apenas científica ou econômica.
Torna-se existencial.
Que tipo de sociedade celebra a cura, mas tolera a distância?
Que progresso é esse que avança tecnicamente, mas hesita moralmente?
A resposta, talvez, não esteja nos laboratórios, mas na forma como decidimos — coletivamente — quem merece viver melhor.


